CARTA A UM AMIGO

Lembranças de Nelo Negreiro

“Caro amigo Chico!

Há algum tempo que não o aborreço, no entanto, tenho acompanhado, pela internet, suas histórias mogianas a respeito dos quatro séculos e meio de fundação de Mogi. Em razão disso, e amparando-me no seu primoroso texto Ser mogiano é..., vasculhei minhas coisas e lembrei-me de um mogiano da gema que não foi famoso, mas contribuiu com sua família para construir nossa história.

Refiro-me a Nelo Negreiro, cognome de Manoel Ramos Negreiro, filho de Manoel Rodrigues Negreiro e de dona Pastora Ramos Negreiro, antigos proprietários de uma das mais populares padarias de Mogi na década de 1940: a Padaria Vitória, situada na Rua Cel. Souza Franco. Nelo era irmão de dona Aurora Negreiro, casada com o senhor Francisco Jamacaru, pais da mogiana Deise Carrião. Era também irmão da dona Clara Nahum, esposa do senhor Alfredo Nahum, genitores do desembargador Marco Nahum. As duas famílias moravam na Rua Cel. Souza Franco, bem no seu começo, entre as ruas Princesa Isabel e Tenente Manoel Alves.

Talvez não tenhamos ainda vivos mogianos que participaram e pudessem ora testemunhar as partidas de buracos e pif-paf com as presenças de dona Aurora e de dona Iracema Pimentel (dona Ira, como era carinhosamente conhecida) esposa do maestro Pimentel (conhecido, também carinhosamente, como Maestro Nhonhô) e mãe do tabelião de Guararema, Silvio Pimentel. Ambas eram divertidíssimas e transformavam os jogos de cartas em verdadeiras pândegas.

Nelo Negreiro era casado com a senhora Lia Negreiro e pai de dois filhos, Manoel, que foi secretário por décadas da Universidade de Mogi das Cruzes, e Cleiton, poeta, músico, professor e diretor universitário, na Capital.

Nelo era um esportista nato. Além de motociclista, ciclista, e nadador das águas do Tietê, à época límpidas, ainda foi protagonista pioneiro da aviação em Mogi, na longínqua década de 30 do século passado. Em companhia de outros mogianos, dentre eles o famoso Zé Macarrão, dono de uma bicicletaria na Praça Oswaldo Cruz, Nelo organizou passeios ciclísticos e participou de várias romarias de motocicleta à Aparecida do Norte, pela antiga estrada Rio-São Paulo, por ocasião dos festejos da padroeira.

O lado folclórico de Nelo encontrava-se no circular de sua charrete pelas ruas centrais de Mogi, acompanhado de esposa e filhos, em meados da década de 1950 e início da década de 1960. Partia de César de Souza, onde morava, pela estrada de terra batida do Rio Acima até o centro da Cidade, estacionando-a na porta do Mercado Municipal ou em frente das casas de suas irmãs na Rua Cel. Souza Franco, rodopiando em amarras as rédeas do cavalo em um poste ou num portão.

É de Nelo Negreiros um lindo poema à saudosa Fonte Luminosa do Largo do Rosário, local de encontros e comemorações estudantis até os anos sessenta e que era orgulho dos mogianos:

Formoso relicário De água mansa e carinhosa És rainha do Rosário Nossa fonte luminosa

Fonte bela e buliçosa Por que choras para quem te olha? Derramas lágrimas por fora Com fartura que nos molha

Entrelaçada em seu seio Brincam as cores da bandeira Não chores, fonte minha! És rainha nesta terra brasileira

Na foto que lhe envio, encontram-se os mogianos Nelo Negreiro (ao centro), Zé Macarrão (esquerda) e Fagundes (direita), em frente à antiga Igreja do Santuário de Aparecida do Norte, num passeio de motocicleta, em janeiro de 1940.

Um abraço,

Mario Antonio Silveira”

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