CARTA A UM AMIGO

A Mogi das fanfarras

Prezado Chico

Este ano está fazendo 50 anos que a fanfarra do Washington Luís conquistou o título de Campeã do Estado. Como sabemos que sua coluna cultua a memória da Cidade e você participou da época, estamos tomando a liberdade de oferecer um texto alusivo.

Com um super abraço

“Aqueles cujo odômetro já virou os 60, certamente devem ter vivenciado a época em que Mogi era uma cidade referência em fanfarras escolares. Havia duas belíssimas, de alto nível e que se tornavam atração em todos os lugares por onde passavam. Não havia evento cívico em todas as cidades da região e até lugares distantes em que as fanfarras não fossem convidadas para abrilhantar a festa. Jogos Regionais, aniversários das cidades, festas típicas temáticas e muitos outros acontecimentos – sempre era requerida a participação mogiana. Choviam convites para apresentações.

Uma delas, a do Liceu Braz Cubas, colégio particular, foi campeã em diversos concursos e viajava para todo lado emprestando a beleza e harmonia de seu conjunto. De outro lado a do I.E Washington Luis, escola do Estado, campeoníssima do Interior e, posteriormente, do Estado de São Paulo e que formou um dos mais notáveis conjuntos do gênero, tornando-se uma verdadeira atração turística da Cidade.

A Cidade se dividia em preferências. Alunos, professores, dirigentes, pais, familiares, amigos e o público em geral destinavam sua simpatia àquela que o coração determinasse, numa espécie de torcida similar à dos times de futebol. Famílias que tinham filhos em ambas as escolas ficavam numa situação complicada e, nem se fala de namoros entre os adversários.

Como pertencíamos a um dos lados, o do Washington Luís, vamos nos ater mais a ele, pois fez parte importante de nossa juventude.

Algumas apresentações da fanfarra chegaram a ser mesmo honrosas pela deferência atribuída na escolha, cabendo salientar a inauguração do Estádio do Morumbi, em São Paulo, provável palco da cerimônia de abertura da Copa do Mundo de 2014. Pouco antes da efetiva partida de futebol entre o São Paulo e o Sporting de Portugal, lá se encontrava no gramado uma garotada mogiana, fazendo evoluções e encantando o público, deixando marcado o nome da cidade na história.

Outros eventos nobres como a abertura das Mil Milhas Brasileiras em Interlagos, prova que antecedeu as atuais competições da Fórmula 1, também tiveram a participação da fanfarra a qual, em verdade, não era um simples grupamento musical. Era sim um coordenado conjunto composto por muita gente, distribuído em várias alas temáticas, fazendo-se uma correlação com as atuais escolas de samba modernas.

Nos desfiles, os rapazes incumbiam-se de tocar os instrumentos musicais e de atuar na complementação do conjunto, como porta-bandeiras, enquanto as garotas emprestavam também sua contribuição na sonoridade musical, através do famoso grupo de “escocesas” que, vestidas à caráter, vinham à frente.

O brilho das meninas oferecia uma força maior ao conjunto, especialmente pelo charme e beleza das “Olímpicas” que empunhavam os arcos característicos e representavam um colírio para os olhos do público. Eram as musas, as beldades, aquelas rigorosamente escolhidas. Ter sido uma “Olímpica”, certamente, é manter uma página dourada no currículo feminino de qualquer uma.

Mas, afora o lado estético, outro aspecto que é muito importante de ser ressaltado e do qual não se observa muito paralelismo com os tempos atuais, é o sentido de integração entre as diversas atividades exigidas para a existência e funcionamento da fanfarra.

Havia um perfeito compartilhamento de interesses entre os alunos, os professores e os dirigentes da escola. Todos contribuíam em sua especialidade. Os professores de Educação Física se responsabilizavam pela harmonia e beleza do conjunto, enquanto a parte musical era coordenada pelo professor da área, que inclusive chegou a compor diversas músicas e arranjos espetaculares.

E os dirigentes da escola? Davam todo o apoio possível. Organizavam as viagens, as acomodações, cuidavam da confecção das roupas e uniformes e muitas outras tarefas. Ofereciam aquela retaguarda imprescindível. E o que é raro, sem demonstrar motivação por nenhum interesse financeiro ou dividendos no campo político eleitoral. O único objetivo era de se poder contribuir para o bem comum.

Tudo isso sem descuidar do principal, que era a formação do conhecimento e do caráter dos alunos, preparando aquela meninada para a vida. Recordamos que, quando da necessidade da confecção de novo uniforme, dona Benedita Grinberg, uma de nossas dirigentes, transformou sua residência num verdadeiro atelier de costura e serviços afins. Por lá circulavam livremente alunos e professores, fora do período de aulas e que iam dar uma voluntária mãozinha na realização dos trabalhos.

O tempo passou, mas essas marcas ficam eternas. Felizmente, embora alguns dos partícipes dessa época já tenham se despedido do nosso mundo, tem muita gente por aí que deverá se reencontrar em setembro próximo, quando estaremos comemorando 50 anos do título de Campeã do Estado, um grande feito que, na ocasião, encheu Mogi das Cruzes de orgulho.

Até hoje, todos os que participaram da época são dominados por excelentes recordações e, de nossa parte, só nos resta agradecer por termos tido a oportunidade de ser um dos personagens daqueles momentos.

Diz-se que os bons tempos não voltam mais. O que é uma pena. Imaginamos como seria bom para as gerações que se sucederam, também poderem desfrutar dessa interação entre todos os envolvidos no ambiente estudantil, tão importante para formação futura do ser humano.

Ao contrário do muito do que se observa nos tempos atuais, o individual não prevalecia sobre o coletivo, o singular não era mais importante que o plural e o 1 não era maior que o 2.”

Calvito José Ramalho Leal”

Engenheiro, brascubense (de bairro) e mogiano, não de nascimento mas de coração (calvitojrleal@yahoo.com.br).

NO MORUMBI – A fanfarra do Instituto de Educação Dr. Washington Luiz desfila na inauguração do Estádio do Morumbi. Era 2 de outubro de 1960. Depois, o São Paulo venceria o Sporting Lisboa por 1 a 0, em partida arbitrada por Olten Aires de Abreu.

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