CARTA A UM AMIGO

A Festa do Divino em 1923

Caro leitor

Oportuníssima a correspondência que me envia Christina Nogueira de Mello – mogiana de quatro costados: é filha de Nazareth e José Honorato de Souza Mello (o veterinário Quita), neta de Maria Isabel e Francisco de Souza Mello (o professor Chico Mello). Escarafunchando os guardados dos pais e avós descobriu o livro de ouro com o qual Chico Mello angariou recursos, na Cidade, para a realização da Festa do Divino Espírito Santo em maio de 1923. Faz 87 anos. Chico Mello era o festeiro.

“A amizade é um sentimento que deve ser conservado de pais para filhos”, diz ela na correspondência que remete o precioso guardado. “Desta forma, seguindo os princípios de meus pais, venho manifestar a minha alegria por ocasião das proximidades da Festa do Divino Espírito Santo em Mogi das Cruzes. Este ano, o início da festa dar-se-á em data importante e especial, o Dia da Abolição da Escravatura. Como descendente de escravos, fico emocionada entregando em suas mãos um relato e documento precioso para a história e devotos do Divino Espírito Santo”.

No manuscrito que abre o livro de ouro, Chico Mello escreve: “Tendo sido sorteado para realizar as tradicionais festividades em louvor ao Divino Espírito Santo a 19 e 20 do corrente mez, venho solicitar de V.S, um auxílio pecuniário em benefício da festa, esperando desse modo poder desempenhar a minha árdua quão honrosa missão com todo o brilhantismo possível”.

O livro reúne autógrafos de 226 mogianos; alguns em duplicata. Começa pelas doações mais polpudas (100 mil contos de réis) encabeçadas por Francisco José de Almeida, Manuel de Melo Freire, Deodato Wertheimer, Leôncio Arouche de Toledo, Adelino Borges Vieira, Francisca de Mello Franco e Anna Elvira de Souza Mello. Seguem-se as de 50 mil contos de réis, outorgadas, entre outros, por: Galdino Pinheiro Franco, Francisco Affonso de Mello, Alice de Souza Franco, Frederico Straube, Joaquim de Mello Freire e Francisco Ferreira Lopes. As menores doações foram de mil contos de réis. E há, ainda, outros autógrafos não acompanhados de valor; o caso de João Camillo de Mello e Carlos Alberto Lopes – estes devem ter optado por não revelar o quanto entregaram ao festeiro Chico Mello.

Uma outra curiosidade: a Festa do Divino Espírito Santo, normalmente realizada por um casal de festeiros e outro de capitães do mastro, nesse ano de 1923 ficou a cargo exclusivo de Maria Isabel e Francisco de Souza Mello. O mesmo ocorreu em outras épocas: 1899, 1906, 1917, 1919, 1924, 1935, 1936, 1938 e 1941 tão não foram designados capitães do mastro.

Grande abraço

Chico

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