CARTA A UM AMIGO

Redes sociais na internet

Meu caro leitor

Até pouco tempo abominava as chamadas “redes sociais” que se disseminam pela internet. Tipo Orkut, sua grande concorrente Facebook e congêneres. Em parte, por resistir ao desconhecido, na realidade por um preconceito: enxergava tais sítios como vitrines de sua própria intimidade. Nivelava-as às vitrines de Amsterdã, onde as profissionais do sexo se expõem em janelas balcão abertas para a rua.

Capitulei há três meses. Foi numa conversa de fim de tarde com um amigo espanhol que nos visita regularmente. Disse-lhe que vinha tentando reagrupar jornalistas que passaram pelos programas que conduzo em São Paulo e que o sucesso não era tanto – coisa de 30% apenas. Ele sugeriu uma rede social; eu lhe expus minha resistência. “Mas há que procurar o meio adequado, você tem razão quanto a algumas, mas há outros que se prestam bem para isso”, disse-me ele.

Parti para a tentativa. Em 40 dias reagrupei profissionais que hoje se espalham pelo mundo; estão no Brasil todo, na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia. Foi gratificante descobrir que 85% deles atuam com sucesso no mercado de trabalho. Em sua maioria nos meios de comunicação. Mas há gente em universidades asiáticas e norte-americanas e outros optaram pela carreira diplomática – seguem atuando em embaixadas e consulados brasileiros. Também foi muito bom reencontrar amigos que as trilhas da vida separaram.

Um deles, hoje empresário de sucesso, contou-me como ia a vida em família, há 35 anos casado com a mesma esposa. “Como?”, contestei-lhe: “Mas foi ‘ontem’ que jantamos na Alameda Barros e vocês me contaram que estavam namorando!”

A passagem mais curiosa, entretanto, foi com um companheiro de antigas jornadas. Ele sempre trabalhou em revista, eu sempre em jornal. O que não nos impediu, pela proximidade etária, de cruzarmos em várias ocasiões e celebrarmos daquelas amizades que ficam. Eu sigo em São Paulo, ele hoje vive em Londres, onde é correspondente de uma revista de circulação nacional.

Pois noite destas, zapeando pela dita rede social no iPhone, encontrei uma conversa do meu amigo com outros de sua rede. Dizia ele, no linguajar típico desse ambiente: “só pra avisar: tou a fim de escrever uma websérie. confidencial. não contem para ninguém. confio neste grupo. tenho na cabeça alguns webisódios já. mas caluda.”

Seguiram-se vários comentários. Como este: “Fica só webentrenós. Ninguém ficará websabendo”. Botei meu bedelho: “Tenho foto do cassino de Baden Baden em 1985 (ou 1987?). Troco por figurinha da Copa.” Para a grande maioria dos que acompanhavam aquela conversa, isto parecia absurdo. E houve quem o denunciasse: “Meu Deus! Alguém caiu de paraquedas”. Não resisti: “Conta, conta pr'ele que está de Miguel nessa”, falei ao amigo hoje em Londres.

E ele retrucou: “Chico! Você! Por favor não conte para ninguém sobre as jornadas de Black Jack no cassino de Baden Baden em 1987. Especialmente não fale da vaquinha que nós fazíamos para que eu jogasse pela turma de jornalistas. Também não conte que o Rui ficava tremendo de medo num trecho que fizemos na Alemanha num aviãozinho. Mas as fotos – pelo amor de Deus – me mande. Tenho que lembrar que um dia tive 30 anos”.

Mandei-lhe as fotos, ele agradeceu. E esta semana cruzei com o amigo que “ficava tremendo de medo num trecho que fizemos na Alemanha num aviãozinho”. Eu chegava ao jornal, ele de saída. Deixou o jornalismo tempos atrás e incursionou pela política – hoje deputado, é o chefe de campanha de candidata à Presidência nas eleições de outubro. Contei-lhe a passagem, ele lembrou-se da viagem e confessou: continua com medo de avião. Dali, seguiria para Congonhas no rumo de Brasília. “Será mais hora e meia de suplício”, me disse.

Sabe de uma coisa? Fiquei fã de rede social.

Um grande abraço do

Chico

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