CARTA A UM AMIGO

Relembrando as festas juninas

Minha cara Maria Amélia

“Avancê....Olha a chuva! A ponte quebrou...”. O velho Alfredo Nahum comandava como ninguém as quadrilhas que animavam as festas juninas, primeiro no Itapety, depois no Clube de Campo. Bem que os dois clubes tentaram, porque tentaram, vencer as festas juninas que a Escola Industrial promovia no pátio do velho Ginásio do Estado na Rua Coronel Souza Franco. Até o Instituto de Educação Dr. Washington Luiz tentou isso. Sem sucesso; em todos os casos. As festas juninas da Escola Industrial, dentre as públicas, eram sempre as mais animadas da Cidade.

Dentre as festas particulares, a disputa ficava por conta de Pedro Fernandes e Pedro Romero. O primeiro, em sua casa junto à Rua Dr. Deodato Wertheimer e, o segundo, no sítio de César de Souza. Nenhum deles, devotos de São Pedro, conseguiu vencer a tradição das festas que Evilázio de Freitas promovia em sua casa, quase uma chácara, na Praça da Bandeira.

As festas juninas de Evilázio de Freitas foram, por anos seguidos, um ponto de referência da Cidade. Quem era convidado não deixava de comparecer e, quem não era, disputava um convite por todas as maneiras possíveis.

Eu aprendi a gostar de festas juninas ainda no pátio da Associação das Famílias Cristãs, que funcionava em um casarão da Rua José Bonifácio, hoje já demolido. O casarão fora residência, na primeira metade do século passado, do professor Adelino Borges Vieira. Quando ele mudou-se com a esposa Josefina e a filha Afonsina para São Paulo e passou a ocupar um palacete na Rua Cubatão, no bairro do Paraíso, o casarão da José Bonifácio foi alugado. Ali funcionou por muitos anos um curso preparatório ao Ginásio. Era o tempo em que se exigia exame de admissão para quem concluísse o primário e pretendesse ingressar no então 2º grau. Também um escritório de advocacia e contabilidade. No salão dos fundos, antiga sala de jantar da família de Adelino Borges Vieira, ficava a Associação das Famílias Cristãs. E, no terreno dos fundos, que ia até a Rua Senador Dantas, eram promovidas as festas juninas.

Eu devia ter de 8 para 9 anos quando meus pais proibiram-me de participar da festa em determinado ano. Esse foi um dos mais sentidos castigos que eu tomei. E eles tinham toda razão: a esse tempo, o Cartório do 1º Tabelionato de Notas e Anexos da Comarca de Mogi funcionava no térreo do casarão de meus avós, ali mesmo na Rua José Bonifácio. Sei lá porque, no dia da festa junina eu cismei de me fazer de porteiro. E armado: fui à garagem da casa de minha avó, apanhei um mosquetão, que ali ficava guardado com outras armas suspeitas de uso em crimes na Cidade e enviadas ao fiel depósito do Tabelionato e me postei na porta do casarão da festa junina. Só entrava quem apresentasse convite. Durou pouco minha valentia: em alguns minutos apareceu meu pai para recolher o mosquetão. Levou junto um choroso “mosqueteiro” vestido de caipira.

Um grande abraço do

Chico

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