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Coisas de estudantes

Meu caro Bila

O encontro que tivemos há alguns dias em minha casa – eu, você, Euclides Ferreira Jr. e João José de Siqueira – não pode ser chamado de um reencontro. Afinal, reencontro só seria se todos não nos víssemos há muito tempo. Não é o caso. Mas o mote de darmos um depoimento à TV Diário sobre o movimento estudantil em Mogi das Cruzes após o golpe de 1964, serviu pelo menos para relembrarmos aquele março de 1968. E desarquivar um jurássico projetor de slides que pudesse mostrar-nos algumas fotos. Depois que vocês se foram, eu fiquei a buscar na memória alguns detalhes daquele período.


O advogado Odilon Benedito Ferreira Affonso – Bila – é também professor universitário e procurador jurídico da Prefeitura de Biritiba Mirim. Casado com a cirurgiã dentista Maria Aparecida Nogueira Affonso, é pai da veterinária Maria Sílvia e da médica Maria Cláudia.

Retrocedi um tempo antes dele e cheguei ao início da década de 1960 quando nós dois, então adolescentes, conhecemo-nos no Instituto de Educação Dr. Washington Luís e nos envolvemos com o Grêmio Estudantil Ubaldo Pereira e o Clube de História Prof. Jair Rocha Batalha. Foi por conta do Grêmio que, numa semana, liderados pelo então diretor Epaphras Gonçalves Ennes (com dois ‘ns’, não esqueça), fomos nós dois acompanhar uma delegação esportiva para uma competição em Ribeirão Preto. Eta viagenzinha difícil aquela, lembra-se? De trem, em um vagão dormitório sarcófago. Não sei se já lhe disse: mas não dormi a viagem toda na certeza de que algum fumante cuidaria de botar fogo no vagão. Sobrevivemos.

Prova disso foi o março de 1968 que recordamos há alguns dias. Quando vocês partiram, lembrei-me da manhã em que fomos – você, Euclides Ferreira Jr., João Siqueira, Lúcio de Melo e eu – à Delegacia Seccional de Polícia atender a uma intimação expedida pela Secretaria da Segurança Pública. Efetivamente, não tínhamos a menor idéia do que estava para acontecer. Era abril de 1968. Freqüentávamos, então, o primeiro ou o segundo ano da Faculdade de Direito Braz Cubas e dividíamos a direção do Diretório Acadêmico 1º de Setembro. Havíamos vencido as eleições no final do ano anterior com o PIRA - Partido Independente de Renovação Acadêmica e Euclides assumiu a presidência sucedendo Eduardo Malta Moreira, o primeiro presidente que o DA teve e hoje secretário de Assuntos Jurídicos da Prefeitura de Mogi.

As eleições foram concorridas. Editamos um jornal de campanha e combinamos, certa noite, que a Banda Santa Cecília abriria um comício em frente a faculdade, na Rua Francisco Franco. O comício seria no intervalo das aulas. Os candidatos, desceriam a rua com a banda atrás. Subiriam num palanque instalado bem em frente a faculdade e ali discursariam. O palanque era uma carreta sobre rodas que fora emprestada pelo então secretário de Obras da Prefeitura, Milton Rabelo dos Santos. Só que Milton não poderia ceder uma camioneta para levar o palanque do depósito da Prefeitura, na Rua Otto Unger, até a Francisco Franco. Lúcio de Melo, que então trabalhava com a família Abbondanza na revenda de automóveis Simca, emprestou de Cachito Abbondanza um jipe Toyota e se dispôs ao transporte. Na esquina das ruas Flaviano de Melo e Tenente Manoel Alves o comboio se desgarrou. Jipe para um lado, carreta sobre um poste. O palanque ficou pronto em cima da hora.

No meio do comício, os candidatos da outra chapa lançaram o desafio de usar o mesmo palanque. Todos concordaram e as eleições terminaram em paz.

Os que fizeram uma campanha de tanto movimento, precisavam fazer o mesmo no início de sua gestão. E se decidiu, então, por duas ações de recepção aos calouros no início do ano letivo. A primeira foi um show de música popular brasileira no teatro da faculdade. Era época dos festivais da Record e se reuniu, ali, gente como o Zimbo Trio e a cantora Neide Alexandre. Tenho até hoje o voto de congratulações com o qual a Câmara Municipal, por obra de um vereador também acadêmico de Direito (Sylvio da Silva Pires) resolveu nos homenagear.

A segunda foi uma peruada, sábado pela manhã, pelas ruas da cidade. Seria uma passeata irreverente de calouros e veteranos. Ocorre que, nas vésperas da peruada, marcada para o sábado, 30 de março, o estudante Edson Luís de Lima Souto foi morto (28.3.) no restaurante Calabouço, núcleo de universitários cariocas. Todo o movimento estudantil brasileiro levantou bandeiras em protesto e nós, em Mogi, ficamos sem saber o que fazer: manter a peruada ou cancelá-la?

Decidiu-se mantê-la e transformá-la numa manifestação de repúdio à violência no Rio. Assim foi feito: ao manifesto lançado pelos estudantes de Direito juntou-se uma emocionada carta aberta escrita por um jovem estudante de jornalismo da ECA, que residia em Mogi: era Floral Rodrigues Roza, hoje um dos mais respeitados consultores em Comunicação no País.

Pois a intimação que nos foi enviada pela polícia, em abril, dizia respeito a essa peruada. Era uma sindicância para apurar um possível crime contra a segurança nacional. Fomos lá, com o advogado Cássio de Souza e saímos, algumas horas depois. Nunca tivemos acesso aos autos dessa sindicância. Anos depois, abertos os arquivos do Departamento de Ordem Polícia e Social, o temido Dops, encomendei uma pesquisa para saber se a sindicância constava dos guardados do regime militar. Não havia nada.

Houve quem, na época, garantisse que a sindicância pretendia apenas intimidar o movimento estudantil da cidade, que começava a criar bases e poderia ter alguma participação nas eleições marcadas para o final de 1968.

Pois é meu caro. Faz 36 anos que isso aconteceu. Todos nos formamos e seguimos nosso caminho. Construímos carreiras profissionais – Euclides no Ministério Público; você, João e o saudoso Lúcio na Advocacia e eu na Imprensa – e constituímos família. Alguns já são avós; eu e você continuamos invictos nesse predicado. E preservamos amizades que me são muito caras.

Não poderia terminar esta carta sem lembrar uma passagem que ainda me cobro não ter testemunhado, mas que me contaram com tantos detalhes que não tenho por que duvidar: prontos para uma viagem ao Caribe, você, Cidinha, Maria Sílvia e Maria Cláudia esperavam em sua casa apenas o motorista que os levaria ao Aeroporto de Guarulhos. Tão logo o motorista chegou, uma escorregadela o lançou direto à piscina. Foi assim mesmo? Com ferro-de-passar você cuidou de secar dólares e passaportes que estavam no bolso?

Grande abraço em todos

Chico

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