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A história de mestre Chang

Esta é a história de Chang Dai-Chien, o respeitado pintor chinês que escolheu Mogi das Cruzes como sua morada por 20 anos, nas décadas de 50 a 70.

1. A CIDADE IGNORA SEU PERSONAGEM

Não adianta procurar na lista telefônica. Não há qualquer referência ao seu nome. Tampouco no mapa da Cidade; também ali não existe nenhuma rua que o reverencie. Menos ainda nas escolas locais. Quem é capaz, hoje, de se lembrar da maior personalidade mundial a escolher Mogi das Cruzes como seu Éden? Ninguém parece lembrar mais de mestre Chang Dai-Chien.


Chang Dai-Chien – 1899 / 1983

Recordei-me dele há algum tempo. Estava em Reston, nas cercanias de Washington, para um encontro com Lee Stinnett, chinês que repugnava os ensinamentos de Mao e optou pelos Estados Unidos como seu exílio. Ali, a 20 minutos da Casa Branca, Lee Stinnett dirigia uma entidade chamada American Society of Newspaper Editors. Encontrei-o em uma pequena sala entulhada de livros. Poucos objetos chineses. Mas eles existiam, como que a levar o cidadão baixo, calvo, de face redonda e olhos amendoados, de volta à sua terra natal.

Não sei se foi na quarta ou quinta frase que trocamos, quando lhe disse que talvez houvesse ouvido falar, em algum tempo, de um chinês que conheci em minha Cidade, no Brasil. Alberto Abreu, brasileiro naturalizado norte-americano, que me acompanhava por recomendação do Departamento de Estado, tascou uma indevida: “Imagina se ele vai conhecer o pasteleiro de Mogi das Cruzes!”

Stinnett não conhecia o “pasteleiro de Mogi das Cruzes”, mas conheceu a vida e a obra de Chang Dai-Chien, o maior pintor chinês dos últimos séculos. De Chang a primeira lembrança que tenho é do início dos anos 50. Eu não havia, então, passado dos 5 anos de vida. Mas, andando pela Rua Dr. Deodato Wertheimer rumo à Igreja do Rosário, para a missa das 11 de um domingo, cruzei com uma caravana de pessoas estranhas. À frente, um homem pequeno de barbas e túnica longas caminhava vagarosamente. Ia pela trilha que um outro homem, este de terno, abria entre os passantes. Atrás do pequeno de barbas, uma caravana em ordem impecável. A senhora que andava imediatamente atrás, trazia pelas mãos uma criança que mal conseguia sobrepor um passo após o outro. Depois, alguns jovens, três ou quatro, todos de olhos amendoados, atrás dos quais iam duas pessoas humildes. Uma delas levava, ao colo, um macaco gibão.

Imaginem o que esta cena significava para uma criança de nem 5 anos em um tempo no qual a televisão só era notícia nas seções internacionais da imprensa! Foi meu primeiro contato com Chang Dai-Chien. Após o qual meu pai levou-me a visitá-lo em um casarão da Rua Santana, onde depois viria a funcionar a Delegacia Seccional de Polícia.

2. NASCE O MESTRE, EM 1899

Mestre Chang veio ter a Mogi das Cruzes no final de 1953, início de 54. Tinha então 55 anos de idade e desde os 20 cultivava a barba. Já era um pintor famoso, de longa carreira. E muitas histórias.

Nasceu em 1899, dia 19 de maio. Seu pai era um rico comerciante, dono de salinas e de lojas em Sichuan, capital da província de Chengdu, às margens do Yang Tze, o verdadeiro amazonas que desemboca no Mar da China.Chang era o oitavo dos nove filhos e sua mãe lhe ensinara as primeiras técnicas da pintura. Uma arte que já havia transmitido ao irmão mais velho, San Tze, pintor que se especializou em tigres e deixou dois de seus quadros na Casa Branca.

Com 9 anos de idade, Chang ainda não havia ido à escola. A família incumbia-se de ensinar-lhe a leitura e a escrita de hieróglifos. E ele passava as tardes à frente de sua casa, brincando com papel de arroz sobre o qual deslizava um pincel molhado na tinta preta feita com cinzas e nas cores opacas que alguns sais possibilitavam. Foi nessa época que uma cigana aproximou-se do menino e encomendou-lhe cartas para ler a sorte dos fregueses cíclicos. Foi o primeiro dinheiro que Chang ganhou com seus pincéis. E ele ganharia, a partir de então, muito dinheiro com seus pincéis.

Só aos 12 anos ele conheceria sua primeira escola. E, também, a primeira grande distância do pequeno mundo no qual então vivia. Foi internado em um colégio de Chun King, no qual revelou-se menino levado, dado às disputas marciais. Nessa época, então com 14 anos, preparou-se para um período longe da família. Na viagem para Sichuan, Chang foi seqüestrado. Ele, um irmão e dois amigos.

Por muito tempo ficaram em poder do grupo que os obrigava a participar de assaltos. A Chang davam uma incumbência adicional: redigir as cartas à família, exigindo resgate para a libertação das 4 crianças. Isso depois que o tentaram forçar a participar de um assalto e o máximo que ele conseguiu foi obter um livro. Bem que a família queria pagar o resgate. Mas não conseguia contato. Apenas 100 dias depois o menino se libertou, fugindo em meio a uma rusga que o bando travava com um grupo de soldados.

3. MORRE-LHE A NOIVA ESCOLHIDA

Chang Dai-Chien era um menino de sua época. Gostava dos estudos. E das artes. Algumas, bem diversas daquela que o faria famoso: com os conhecimentos que obteve no estudo da química, fabricou uma bomba e, com um amigo, foi lançá-la em um edifício público em Chun King, durante manifestação de estudantes.

Aos 18 anos, Chang Dai-Chien deixou sua cidade natal, Neikiang, e foi para Shangai continuar seus estudos. Ficou pouco ali. Mudou-se em seguida para Tóquio. Uma mudança decisiva para sua vida, pois com os mestres japoneses aprendeu a técnica de tingir tecidos. Mas com eles insistia em manter as raízes chinesas: negava-se a falar outra língua que não a de seus ancestrais. Vestia túnicas chinesas e, nas aulas, usava os serviços de um intérprete. Bem que ele aprendeu a falar japonês. Mas, em público, insistia sempre na sua língua materna.

Quatro anos Chang Dai-Chien ficou em Tóquio. Quando voltou para Shangai, encontrou, doente, a moça que lhe haviam reservado para esposa. Ela morreu antes do casamento e Chang, desconsolado, decidiu ser monge. Incógnito, viajou para um mosteiro budista e, ali, recebeu seu nome definitivo: Dai-Chien. Na tradução literal significa Grande Universo.

Por vários meses a família o procurou. Por toda parte, sem sucesso. Chang Dai-Chien, recluso, seguia com sua disposição à vida em clausura. Mas nada, na sua vida, era definitivo. E Chang acabou por se rebelar contra a rotina religiosa e não obteve a sagração como monge. Deixou o mosteiro levando dali apenas o nome que o acompanharia pelo resto da vida.

Foi nessa época que, enfim, seu irmão mais velho o encontrou. Aplicou-lhe uma surra e o levou de volta para casa onde a mãe, na tentativa de uma solução para eventuais fugas futuras, cuidou de conseguir-lhe uma noiva.

Os compromissos de família firmaram a união. Mas não garantiram a felicidade do casal. Aos 23 anos, Chang retornou a Shangai disposto a abraçar, em definitivo, a arte que considerava sua vida: a pintura. De pronto, foi ter a Lee Mae An e a Tseng Shi, dois dos mais conceituados mestres chineses dos pincéis. Tseng Lonn Shi, em especial, era um professor emérito que por toda a vida cultivara a caligrafia até que, aos 60 anos, decidiu por ingressar na pintura.

Nas aulas com seus grandes mestres Chang Dai-Chien punha-se a copiar os quadros antigos que eles possuíam, tentando desenvolver técnicas semelhantes. Quadros do século XVII, em especial os assinados por Chang Feng, Pata-Shanjen e Shih-T'ao. A aplicação nos estudos permitiu-lhe participar de uma mostra de jovens pintores em Shangai. Era tudo o que Chang precisava para alcançar a notoriedade. Aos 28 anos já tinha nome feito na China e permitia-se longas viagens pelo rio Yang Tze. Nessas viagens ele cuidava de fazer anotações, muitas anotações. As mesmas que, muito tempo depois ele utilizaria para pintar um quadro de 15 metros no qual detalhava o grande Yang Tze da nascente à foz, incluindo todos os povoados e detalhes geográficos. O quadro foi pintado em 1966 num lugar que, muito provavelmente, nunca o jovem Chang poderia pensar em conhecer. Esse lugar chama-se Mogi das Cruzes.

4. ENFIM, A FELICIDADE

Desde que encontrara doente a noiva que lhe fora reservada pelo acordo de famílias e, à sua morte, acabou por ingressar em um mosteiro budista e depois não alcançou a felicidade com a segunda noiva – e sua primeira mulher – também indicada pelas famílias, Chang Dai-Chien vivia solitário. Até que, no final dos anos 20, em um novo retorno a Neikiang, onde nasceu, o pintor enfim casa-se com a moça que ele próprio escolhera. A felicidade, então, passou a ser mais do que um sonho distante.

E Chang Dai-Chien, com o irmão mais velho, correu a ensinar pintura para muitos discípulos, os mesmos que conviviam como se formassem uma única família.. Em 1931, após visitar as Montanhas Amarelas, Chang foi enviado pelo governo chinês para uma exposição das dinastias T'ang, Sung, Yuan e Ming. Foi no Japão, país onde ele vivera anos antes e iniciara-se na arte dos pincéis. E Chang ficou no Japão vários meses, esboçando paisagens e jardins orientais. No ano seguinte – 1932 – voltou para a China e passou a viver num palácio de verão junto ao lago Kunming, nas cercanias de Pequim. Dali saía para expor suas obras em Londres e Paris.

Quando a guerra sino-japonesa começou, ele estava em Pequim e ali ficou retido pelos invasores, que o impediram de viajar para qualquer outro lugar. A esse tempo o mestre Chang Dai-Chien já se havia casado pela terceira vez. E vivia seu confisco pessoal ao lado da nova esposa e dos primeiros dos 16 filhos que viria a ter.

Inconformado com a impossibilidade de deixar Pequim, o pintor e sua família articularam um plano de fuga e conseguiram escapar. Foram primeiro a Sichuan. Depois, esconderam-se nas montanhas Ch'ing-Cheng. Foram tempos difíceis aqueles: as exposições e os negócios com seus quadros, garantia de sustento da família, estavam impossibilitados de serem feitos.

Em 1940, Chang Dai-Chien vai às cavernas de Tung Huan, a noroeste da China. Foi ali que o pintor soube da morte do irmão querido, Chang San Tze. Em Tung Huan ele permaneceu por muito tempo. As cavernas são verdadeiros templos sagrados da China, depositários de pinturas antigas, de afrescos medievais. Foram três anos convivendo com esse tesouro. Até que, em novas viagens, Chang Dai-Chien acabou por firmar seu quarto casamento.

Foi em 1949 que os aliados de Mao Tse Tung assumiram Pequim. Chang Dai-Chien, que previra a revolução, cuidara antes de se mudar, com todos seus apetrechos, a esposa e uma filha pequena, para a ilha de Formosa. Foi em seguida para Hong Kong e, de lá, para a Índia, onde promoveria uma exposição em Nova Delhi.

5. RUMO À ARGENTINA

Após permanecerem por um ano na Índia, mestre Chang Dai-Chien e sua família acabaram retornando a Hong Kong. Nos encontros com amigos, em que expõe sua busca por um lugar seguro e permanente para viver, o pintor aceitou a sugestão de um deles e embarcou, com mulher e filhos, para a Argentina. Ao todo, vão 13 humanos e quatro irracionais: Chang, a esposa, sete dos 14 filhos, um neto, um técnico em molduras, uma babá, uma camareira. E quatro macacos gibões, raça à qual o pintor havia de afeiçoado em sua passagem pela Índia.

Quando chegaram a Mendoza, local escolhido para nova residência, os Chang já encontraram um clima de reverência a todos. Isto porque padre Kao, o amigo que lhe indicara a Argentina como local ideal para fixar residência, cuidara de informar às autoridades locais a importância do novo residente. Chang Dai-Chien foi, então, recebido na Casa Rosada. Era a época gloriosa do Peronismo, que lamentava a perda de Evita (26.7.52).

Sabe-se lá por quais motivos, Chang Dai-Chien não ambientou-se na Argentina. E, no ano seguinte (1953), ao retornar dos Estados Unidos para onde viajara com várias de suas obras, voltou em um vapor com várias escalas pela costa brasileira. Foi em Santos, onde o esperava um amigo, que ele ouviu falar pela primeira vez de uma região de clima bom, localizada não muito longe do porto de Santos e na qual era possível adquirir terras por preço compensador.

Chang Dai-Chien visitou então, pela primeira vez, as cercanias de Mogi das Cruzes. Logo mudou-se para cá. Ocuparam todos uma ampla casa na Rua Santana, próxima da esquina com a Rua Ipiranga e perto de um hospital dirigido por um médico amigo do professor: o dr. Nobolo Mori. Dois anos depois, percorrendo o bairro de Capela do Ribeirão (hoje Taiaçupeba), Chang Dai-Chien encontrou um sítio de seis alqueires, no quilômetro 17 da atual estrada Mogi-Bertioga. As terras, cortadas por um ribeirão, pareciam ideais para os objetivos do mestre. Mas ele decidiu-se pela compra foi mesmo ao encontrar um enorme e antigo pinheiro.

Adquirida a terra, era tempo de desenhar e construir o seu paraíso.

De quatro anos precisou o mestre para transformar o terreno de capoeira em um recanto inesquecível. A família mudou-se para lá no início dos anos 60. Eu o visitei em sua nova morada, pela primeira vez, em 1963. Fui levado pelo professor Horácio da Silveira, que me enfiou goela abaixo o gosto bom do estudo da História.

Já havia ali a Horta das Oito Virtudes (Pa-Te-Iuan), com seus pés de caqui. Também um jardim imenso, com flores, plantas, um casal de cisnes no espelho d'água (o Lago dos Cinco Quiosques). Um pavão. E os bonsai, árvores miniaturas, uma das paixões de Chang Dai-Chien. Também o Dragão Deitado: era o imenso pinheiro que por força de amarrações de arame adquiriu a forma que lhe dava o nome.

Quando algum visitante chegava, era levado pelo mordomo a passear pelo jardim. Enquanto o mestre se preparava para receber o estranho. Não importava que um importante marchand disposto a comercializar suas obras; ou apenas um adolescente curioso. Como eu. A todos dedicava uma atenção profissional e encaminhava à construção maior, de pé direito alto e telhado em estilo chinês. Era o seu estúdio. O novo estúdio, que substituíra um pequeno, anexo à primeira construção do sítio. Os dois prédios – o novo estúdio e a casa original, foram ligados por um salão, idealizado para as recepções mais importantes.

Chang Dai-Chien nunca negociou pessoalmente uma obra sua. Sempre transferiu essa incumbência a marchantes. Mas, várias vezes, entregou em doação obras a amigos em dificuldades.

6. A VIDA EM MOGI

A vida no paraíso que criou em Mogi das Cruzes parecia enfim dar a Chang Dai-Chien a felicidade plena. Ele não escondia a satisfação de receber convidados para banquetes nos quais se serviam sempre mais de 10 pratos que a cozinheira vinda de Hong Kong preparava. Um deles, infalivelmente, à base de barbatanas de tubarão.

Às vezes, reunido com a família e seus serviçais, Chang Dai-Chien comunicava, na noite anterior, que pela manhã seguinte iriam todos para Campos do Jordão em busca de ameixeiras e pinheiros ou para Itaquaquecetuba, à cata de flores. Incursões semelhantes eram feitas, com alguma regularidade, por Atibaia, onde Chang encontrava suas azáleas preferidas ou a Pirapora, catar pedras no Rio Tietê. Nessa ocasiões, iam todos em uma Kombi.

Triste mesmo ficava o sítio de Taiaçupeba quando o mestre Chang Dai-Chien partia para incursões pela Europa e pelos Estados Unidos. Ia expor suas obras. Em uma dessas viagens, quando estava na Europa, Chang foi a Monte Carlo para um encontro com Pablo Picasso. Conversaram durante horas e ali firmaram uma sólida amizade, selada pela troca de quadros que um mestre ofereceu ao outro

Mas, em 1968, a idade começou a afetar a saúde de Chang Dai-Chien. Sofria de catarata, tinha crises de diabetes e problemas cardíacos. Os amigos e a família insistiram para que ele se mudasse para os Estados Unidos e saíram em busca de um canto que pudesse convencê-lo a deixar Taiaçupeba. Não foi fácil. Mas, veio um dia a notícia de que uma barragem inundaria o paraíso construído em Mogi das Cruzes. E Chang Dai-Chien não quis ficar para ver a água encobrir seu Éden. Mudou-se para uma cidade próxima de Carmel, perto de São Francisco (Califórnia), às margens do Pacífico.

A mudança definitiva foi em 1970. Ele passou a ocupar uma ampla casa em Pebble Beach. Voltou a Mogi das Cruzes em 1973. Veio, pela última vez, ver o jardim que criara. Em 1976, a convite do governo de Formosa, viajou para rever velhos amigos e decidiu-se por fixar residência em Taipe. Morou inicialmente em um apartamento. Pelo tempo suficiente para que um famoso arquiteto local desenhasse e erguesse uma casa e dois estúdios interligados por elevador.

Foi ali que mestre Chang Dai-Chien pintou seus últimos quadros, inclusive um muito grande, ao qual dedicou um ano de trabalho. Mas os anos pesavam, a saúde comprometia suas mãos e a catarata o impedia de definir as cores que eram sua própria vida. Em abril de 1983, no Hospital Geral dos Veteranos de Taipe, onde estava internado desde 8 de março, morreu Chang Dai-Chien. Era dia 2. Ele tinha 84 anos de idade. Nessa época, a barragem de Taiaçupeba ainda não havia inundado o paraíso criado nas cercanias de Mogi das Cruzes.

Chang Dai-Chien deixou sua quarta esposa e 16 filhos. Suas obras, espalhadas por todo o mundo, podem ser vistas especialmente no MAM de Nova York e o Jeu-de-Paume, de Paris

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