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A cidade somos nós

Querida tia Cecília

Na viagem de volta a Mogi, no dia em que lhe escrevi um bilhete de congratulações por seu aniversário, no final de março, e no qual cobrava-lhe uma visita à cidade, fiquei a pensar há quanto tempo você não passa por aqui. E viajei na memória imaginando as diferenças que você encontrará.


A professora Maria Cecília Arouche Ramos, mogiana de nascimento, vive hoje em São Paulo com o marido Álvaro Carneiro Ramos, cercada pelos filhos (Maria Beatriz, Maria Laura, Maria Lúcia e Álvaro) e netos.

Há algum tempo, não muito, no shopping de Mogi, uma exposição de fotos de famílias locais coletadas no acervo de Isaac Grinberg, mostrava muitas nas quais vô Leôncio estava sempre acompanhado de uma menina de cabelos em cachos. Em todas as fotos, e não eram poucas, ele estava de mãos dadas com a menina. Identifiquei-a de pronto. E fiquei a imaginar o carinho que ele tinha por você. Com as quatro filhas sim – Maria, Leonor, Stella e você. Com os quatro filhos também – José, Maninho, Tico e Franco. Mas com Cecília, pelas fotos, imaginei que era algo especial.

Você se casou em 1956. E se mudou de Mogi. Eu tinha 9 anos. E é curioso como os escaninhos da memória guardam recordações. No meu caso, já me disse um amigo, “recordações afetivas”. Pois eu me lembro com detalhes meus primeiros meses de incursão escolar, no primário do Instituto Dona Placidina, tendo você por professora. Foi ali, um dia, que você me chamou e me deu um prêmio por ter tido os melhores resultados em um exame de dentição feito no colégio. O prêmio eram 10 notas de 1 cruzeiro cada – devia tê-las guardado. Depois que vô Leôncio morreu, em janeiro de 1955, eu passei a dormir algumas noites na casa de vó Nenê. Era o casarão da Rua José Bonifácio nº 360. Eu ocupava o quarto que dava para a sala de jantar, onde uma mesa de 16 cadeiras acolhia-nos nos almoços de domingo, servidos pela fiel Brandina. Você ocupava o terceiro quarto do corredor; vovó o primeiro. A casa mantinha a decoração do tempo em que foi construída, em meados da década de 1910. As escadarias de mármore davam acesso à ampla varanda para a qual se voltavam os janelões dos quartos, do gabinete que se transformou depois em sala de TV e da porta do salão da frente, como chamávamos a área onde vovó mantinha o piano e vovô promovia suas tertúlias. Vizinha do pequeno cômodo que servia como capela com a imagem de São Benedito (padroeiro dos Arouche) e uma placa de prata fazendo referência que aquele altar havia sido encomendado em sua homenagem. Mas o seu quarto tinha móveis diferentes, atuais, na cor marfim.

Pois essa casa não existe mais. Foi demolida na década de 1970 numa ação de lesa patrimônio. Depois que vó Nenê morreu, em março de 1964, o casarão passou para a Prefeitura de Mogi, que já detinha a posse das construções vizinhas, que haviam pertencido a Deodato Wertheimer e Adelino Borges Vieira. Pois do dia para a noite a Prefeitura colocou as três casas abaixo. Para que? Não sei: hoje existe um estacionamento na área

Como lhe dizia, fiquei a pensar naquele final de março sobre a cidade que você encontrará quando nos visitar. Em meados da década de 1950, quando você a deixou, Mogi das Cruzes tinha em torno de 70 mil habitantes. Hoje, cerca de 360 mil. Você vai me perguntar onde cabe tanta gente em Mogi! Não é difícil imaginar: Jundiapeba, que ao seu tempo era apenas uma estação de trem alagadiça e que, além do Sanatório, nada mais tinha, hoje é um bairro de muitos contrastes. Não distante de conjuntos residenciais de baixa renda, há o mais luxuoso hotel na área metropolitana à exceção da Capital. Hotel com campo de golfe, heliporto e frente para a Barragem de Taiaçupeba.

Braz Cubas também mudou muito. Hoje abriga cerca de 40% de toda a população do município. E, no seu tempo, acho que era apenas o lugar onde íamos para a Cantina do Simões, depois de passar ao lado do Matadouro Municipal.

César de Souza – ou Vila Suíça, como queira – não é mais apenas as terras de Pedro Romeiro onde havia uma cerâmica. Lá há muitos conjuntos residenciais, outras tantas fábricas, a sede da TV Diário e um outro campo de golfe.

O Rodeio virou bairro tomando o nome da fazenda onde minha mãe chegou a lecionar em uma escola isolada e meu pai caiu de roupa na piscina em um dos piqueniques de 1º de maio que a família promovia.

Da cidade do seu tempo ainda restam algumas referências. As igrejas do Carmo estão lá, iguais e ao lado do Teatro Vasquez, que continua o mesmo por fora. Por dentro, é outra coisa: perdeu as galerias, os camarotes, as frisas. A Igreja do Socorro é a mesma, mas a velha matriz não existe, construíram outra no lugar; a Igreja do Rosário foi demolida e o Hotel Estância dos Reis abriga hoje uma escola. Para os lados da estância, em terras que pertenceram a Benjamim de Oliveira, surgiu um novo bairro, a Vila Oliveira.

Lá para os lados da Chácara da Yayá tudo mudou. Nas terras da chácara – não sobrou nem a capelinha – construíram duas universidades e os prédios públicos. E o terreno contíguo que chamavam de Esplanada e onde ficaram por muito tempo as ruínas do que foi, um dia, o canteiro de obras da Adutora do Rio Claro, abriga hoje um shopping center. Dos cinemas (Avenida, Urupema e Odeon) restam os prédios.

Mas sabe, tia Cecília, as pessoas não mudaram. Faz tempo que não encontro sua amiga Juracy; mas Jurema, também sua amiga, Nanci encontrou tarde destas em um chá beneficente. Cida Briquet mora na mesma casa do Largo da Matriz, quase vizinha de tia Miriam. Eu ainda acho que a cidade somos nós. Falta você.

Um grande beijo em todos

Chico

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