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Colecionador de suspensórios

Meu caro Élbio

Não o chamo de “tio” unicamente porque, não estando mais aqui, não poderá retrucar com o impropério que sempre me dedicou quando lhe dirigia o qualificativo. Mas impossível deixar de lembrá-lo depois de ter passado, há alguns dias, por uma agência bancária localizada no térreo do edifício da Prefeitura Municipal de Mogi. Foi ali que, uma tarde, tão logo me viu entrar, você correu esconder-se atrás do balcão. Senti clima para uma brincadeira e falei à moça que estava no caixa: “Meu nome é Francisco, sou sobrinho do dr. Élbio, e ele disse-me para passar todas as semanas aqui que você me entregaria a mesada prometida por ele”. Tão logo encerrei a frase, você irrompeu de onde estava para, com o vozeirão de sempre, cumprimentar-me (sic) e abrir os braços.

Foi do que eu precisava para muitas lembranças. Lembrei-me, por exemplo, de duas passagens envolvendo médicos nossos amigos. Uma, por conta de um jantar na Chácara de Santa Fé ao qual cheguei atrasado e, logo, dei por falta de você, Tote e Nelo. Disseram-me - os que ficaram - que você havia se sentido mal e os dois amigos o levaram para o hospital. Bem que eu pensei em também ir para lá. Mas deixaria os amigos sem um anfitrião e acabei ficando. Ligava para o hospital a cada 15 minutos em busca de notícias. Não as conseguia. Pouco mais de uma hora depois, chegaram de volta Tote e Nelo. Animados, contaram a todos que você estava bem. E relataram o que se passara no Hospital Ipiranga: quando chegaram lá, pediram de pronto que avisassem o diretor do hospital, dr. Nobolo Mori. O dr. Nobolo chegou rápido. Você estava deitado em uma mesa de exame. Em sua volta três ou quatro médicos, mais o dr. Nobolo. Todos perguntavam ao mesmo tempo pelos sintomas e não conseguiam resolver. Parecia um caso simples. Ou, então, muito difícil. Até que chegou, avisado sabemos lá por quem, o seu genro, Milton Coelho. Milton contou, então, que na noite anterior haviam ido a São Paulo e jantado em um restaurante de peixes. E que você havia se deliciado com um prato de camarões. O problema estava resolvido. Que intoxicação que nada. Você tinha gases, que os médicos rapidamente colocaram para fora.

Em outra ocasião, no centro cirúrgico de um hospital de Mogi, você ouviu do cirurgião José Carlos Novaes: "O que tem havido, dr. Élbio, para que o seu sobrinho Chico Ornellas o tenha poupado, nas últimas semanas, nas crônicas sobre a Confraria de Santa Fé?" "Aquele safado – respondeu você - não me dá sossego. Pois você não sabe que há alguns dias recebi um telefonema do Jorge, amigo meu apesar de pai do Chico, preocupado comigo e desejando-me boa sorte. Fiquei feliz e, logo que desliguei o telefone, liguei para o celular do Chico. É um problema falar com aquele menino. Acho que ele nunca paga as contas do telefone, pois cada vez que o chamo, a ligação ou não completa ou cai. Mas, nesse dia, depois de muita insistência, consegui dar um pito no moleque. Disse a ele que não sabia como, tendo um pai tão gentil e amigo, a figura saiu daquela forma. Pois não é que o Chico - prosseguiu você, avental cirúrgico a cobrir o corpo - tão logo acabei de lhe aplicar o merecido pito, reage exatamente de forma oposta a que seria de se esperar e me disse, textualmente - 'Oi, tio Élbio, sabendo da breve cirurgia, estava mesmo ligando para o senhor. O senhor cuidou de fazer um testamento, lembrou-se de mim como seu herdeiro?' É claro que lhe disse, então, boas e boas. Contei que tinha sim feito o meu testamento e que para ele deixaria as minhas dívidas, que são poucas". De um lado da mesa cirúrgica o dr. José Carlos Novaes; do outro, o dr. Riosuque Hatanaka, anestesista competente e confrade de longa data, não resistiram: caíram todos na gargalhada ante o olhar surpreso de instrumentistas e enfermeiras que estavam ali para a cirurgia de tio Élbio Pacheco.

Eu poderia, meu caro Élbio, ficar horas a fio relembrando histórias suas. Mas vamos nos restringir a apenas duas outras. Aquela em que você resolveu se desfazer da sua coleção de miniaturas, na mesma época em que deparou-se com um anúncio nas páginas de classificados de um jornal paulistano. Era alguém interessado em comprar coleções de bebidas. Miniaturas ou não. Você levou, primeiro, as miniaturas. Achou bom negócio; voltou algumas semanas depois, em companhia de Toninho Anderi, para negociar as 60 garrafas que reunira ao longo de muitos anos. Todas cheias. Fez negócio. E comentou com o cunhado, José Arouche de Toledo, que também tinha uma bela coleção de uísque. Acompanhou-o alguns dias depois ao mesmo escritório de São Paulo. Escritório elegante, de quadros finos e poltronas de couro. Fizeram o negócio, voltaram com o cheque. Dois dias depois, o mesmo jornal cujos classificados anunciavam o interesse do colecionador em adquirir miniaturas e garrafas cheias, trazia na página policial a manchete noticiando a prisão de um grande fraudador da Previdência Social. Era o mesmo empresário do escritório chique que colecionava uísque.

Finalmente, impossível esquecer aquela passagem de 1982, quando você chegou vestindo uma camisa elegante, com duas faixas verticais à frente. Nelo Boratto brincou: “Você está de suspensórios?” Élbio reagiu, defendendo a vestimenta que a filha Cecília Helena o presenteara. Domingo seguinte, com a cumplicidade da filha e da esposa Maria Helena, a imagem de São Francisco que então adornava o jardim do pedaço, estava vestida com a camisa de faixas verticais. Nos classificados de O Estado de S. Paulo desse mesmo dia, publicava-se um anúncio com os dizeres: “SUSPENSÓRIOS - Colecionador de suspensórios procura modelos novos ou antigos. Dá-se preferência aos que tenham pertencido a personagens da história. Tratar com dr. Élbio, telefone: (011).......”. Quando você chegou para a matinal, já havia recebido um telefonema, a cobrar, de Fortaleza no Ceará. Alguém lhe oferecia os suspensórios do capitão Virgulino, o Cangaceiro. E meu filho, então com sete anos de idade, foi cumprimentá-lo. O menino vestia suspensórios.

Meu caro Élbio, você nos faz falta há quase 6 anos, que se completam no final de agosto. Mas me ficam muitas lembranças e algumas recordações. Como um perfil seu entalhado em madeira recortada com serra tico-tico, que me foi presenteado pela Cecília Helena.

Grande abraço de saudades

Chico

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