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Glória e declínio do Teatro Vasques

Na segunda metade da década de 1960, por iniciativa do professor de História Horácio da Silveira, foi fundado no Instituto de Educação Dr. Washington Luiz o “Clube de História Professor Jair Rocha Batalha”. Atuante instituição de estudantes, o Clube de História teve papel de destaque na campanha pela preservação das Igrejas do Carmo, enfim tombadas pelo Patrimônio Histórico Nacional.

Nesse mesmo período, o Clube de História editou “Cartouche”, revista dedicada a temas históricos que, em sua edição de agosto/setembro de 1966, publicou o seguinte estudo acerca do Teatro Vasques:

Este ensaio sobre o teatro mogiano foi realizado em um grupo de pesquisa.* Necessitou de um tempo relativamente longo para que se pudesse colher fontes essenciais, necessárias ao levantamento histórico. Todavia, a insuficiência de documentos originais – tolhendo os esforços de melhor profundidade do tema – levou-nos a apelar para as fontes informativas de pessoas que viveram esta interessante época que, através de entrevistas, nos cobriram das maiores atenções e gentilezas, proporcionando-nos os primeiros frutos desta pequena grande pesquisa. A elas dedicamos este trabalho, certos de que estamos lançando aqui algo que possa contribuir para um capítulo da história de Mogi das Cruzes.

O GRANDE EVENTO

Mogi das Cruzes já teve, para satisfação dos amantes da arte cênica, uma casa de diversões a que foi dado o nome de “TEATRO VASQUES”, em homenagem ao grande ator brasileiro que representa, incontestavelmente, uma das glórias do palco nacional.

Foi em 1900 que um grupo de mogianos pretendeu erigir um teatro para abrigar os espetáculos dramáticos, levados à cena por amadores, improvisados em casas particulares ou no saguão do Mercado Municipal. Um teatro que pudesse atender a imensa platéia que já em 1897 se apinhava no prédio da Rua do Sacramento (hoje Pe. João), esquina da Rua das Flores (hoje Flaviano de Melo), no edifício que recebeu o título pomposo de “Teatro Mogiano”. Um teatro que levasse um pouco de cultura a mais ao povo. E, afinal, o teatro não era tão jovem assim: tinha uma trajetória imensa através dos tempos, desde que a idéia de Gil Vicente continuava a ser encenada. E lançar um teatro em Mogi, nada mais seria que mostrar a elevada cultura e o pioneirismo acima de tudo, já que, paralelas às outras evoluções, Mogi já fazia por merecer tal iniciativa.

Foi assim que no ano de 1900 a idéia tomou corpo. Ao Cap. Joaquim de Mello Freire, aderiram o Cel. Benedito José de Almeida, Cel. João Batista Moreira da Glória, Dr. Antonio do Nascimento Moura, Cel. Marcolino de Paiva, Basílio Navajas, Dr. Francisco de Borja Dias, Cap. Emílio Navajas, Tte. Manoel Alves dos Anjos e outros, homens de prol da sociedade mogiana da época que constituíram a comissão encarregada da construção do Teatro mediante vende de ações de 100$000.

Em terreno cedido pela Câmara Municipal, ao lado do Convento do Carmo, iniciaram-se, em fevereiro de 1901, as obras de construção, alardeadas com joguetes, música e discursos que envolveram o assentamento da primeira pedra. A direção dos serviços, confecção da planta do edifício, pintura, foram confiados ao já consagrado ator brasileiro Roque de Castilho.

Quase dois anos depois, o belo e elegante Teatro Vasques, soberbo por sua fachada, contrastava com o cenário colonial do Largo do Carmo. No assoalho nu de taboas largas e compridas, distribuiam-se as cadeiras da platéia – com a galeria nobre à frente do palco – ladeadas pelas frisas, entremeadas nas colunas laterais que sustentavam as duas alas de camarotes, onde as cadeiras de palhinha contrastavam na decoração do veludo vermelho. Acima de tudo, para as pessoas menos privilegiadas, ficavam os balcões, encimados pelo teto ricamente decorado. Seiscentos lugares, aproximadamente, comportava o teatro. Na parte de cima do palco, relevadas pelas cortinas pesadas, ou pelo “pano de boca”, destacava-se, na penumbra da iluminação de gás de carbureto, o retrato de Francisco Correia Vasques.

A 6 de dezembro de 1902 teve lugar a festiva inauguração do Teatro Vasques. Entre as eloqüentes palavras dos oradores, ouvidas pela elite mogiana da época, iniciou-se o espetáculo da Banda Guarany executando um trecho do “Trovador”, replicada pela Euterpe num trecho do “Fausto”. Seguem-se discursos inflamados e, finalmente, quase à meia-noite, amadores encenaram as pelas “Amor em Libré” (1 ato) e “Tire dali a Menina” (2 atos), que se prolongaram pela madrugada.

Começa aqui a grandeza do teatro mogiano num gigantesco esforço de pioneiros que queriam ver na cidade tamanho evento, tão grande que pudesse justificar o nome e a projeção de Francisco Correia Vasques, esculpido no frontispício do Teatro.

PRIMEIRO ATO DE APOGEU

Realmente, os anos que se seguiram à inauguração foram pródigos em realizações de nível artístico. Até 1906 – marco que poderíamos delimitar como apogeu do Teatro Vasques p apresentaram-se em Mogi grandes companhias teatrais de renome, encenando dramas, comédias e até revista que caracterizavam a cidade da época, tão decantada nos seus cenários ou na representação dos tipos mais característicos. Ferreira da Silva, Alexandre Poggio, foram algumas dessas companhias que para cá se dirigiam, alugavam o salão e davam espetáculos por três ou quatro meses. As bandas musicais que orquestravam as apresentações nos entreatos, anunciavam pelas ruas os espetáculos, distribuindo os programas em troca de ingressos gratuitos para seus familiares. Todos os domingos, das 20 às 23 horas, o velho Vasques era o ponto de reunião da sociedade mogiana. Nos camarotes lá estavam as pessoas mais privilegiadas, pagando 20$000; na galeria nobre, pessoas de destaque social, a 1$200 o ingresso; na platéia, o povo em geral pagando 1$000 e, no “poleiro”, a $500, as classes mais inferiores.

Mas nem só de temporadas vivia o Teatro Vasques. Quando não havia companhias vindas de outras lugares, grupos de jovens amadores encenavam espetáculos beneficentes, preparados com muito entusiasmo, apesar da deficiência de guarda-roupa e dos cenários improvisados. O jornal “A Vida” (17 de junho de 1906) nos dá um interessante testemunho dessas apresentações: “Realisou-se domingo último, como estava annunciado, o espetáculo dramático em benefício da atriz Laudelina Castilho. Conquanto a noite estivesse um tanto ‘carrancuda’, ameaçando chuva, a concurrencia foi regular. Subiu a scena o drama de 4 actos: ‘O crime da ponte nova’. Os amadores procuraram dar o melhor desempenho possível aos seus papeis; não fosse a precipitação da última scena do 2º acto, o acompanhamento com que alguns appareciam no palco e o modo brusco pelo qual finalisou-se o 3º acto sendo descido o panno antes da hora, poder-se-ia mesmo dizer que trabalharam bem, pois a maioria delles era a primeira vez que se via em taes apuros”.

Neste mesmo ano, Mogi já contava com o “Grêmio Dramático Arthur Azevedo”, composto de rapazes da elite e núcleo de futuros grupos amadores que iriam levar à cena as peças de Manuel Mello Freire, Aprígio de Oliveira, Cap. Basílio Marques, D. Leonor de Oliveira Mello e Aleixo Costa.

Fruto de sua época, o teatro nesse período não excedia à dramatologia tradicional. Operetas, comédias, revistas e dramalhões estavam bem a gosto do público espectador. Mesmo nos anos seguintes, nunca se fugiu a estas representações, apenas saciando mais o prazer do público pela constância de dramalhões, tão do gosto da época. Era mais um teatro de variedades, preenchidos com quadros cômicos, mágicas, intercalados pelo compasso típico das bandas de música.

ESTAGNAÇÃO E ÚLTIMO ALENTO

A partir de meados de 1906, o entusiasmo inicial começa a arrefecer. Uma certa indiferença começa a enublar o “tempo da Arte Dramática”, provocando a mágoa de Silva e Costa através das páginas de “A Vida” (10 de junho de 1906): “Hoje infelizmente, sem uma causa justificada e plausível, quase todos olham para o theatro com indifferença, e muito embora represente-se alli a melhor peça dramatica, cômica ou trágica, não desperta muita attenção nem siquer procura auxiliar aquelles que representam, facultando-lhes os meios necessários para serem bem succedidos...Queremos quer que isto provém da falta de gosto pelas artes, ou então de algum resto de avareza disfarçado em economia e sobriedade. Meditando profundamente sobre isto, somos forçados a dizer: é necessário, e mesmo urgente, transformar o elegante ‘Theatro Vasques” em uma egreja, ou em qualquer outro estabelecimento mais aproveitável; do contrário elle permanecerá sempre fechado, às moscas; e todas as vezes que funccionar, isto de anno em anno, não dará resultado algum embora pagando o avultado imposto de 60$000 por noite. Construiram um edificio tão bonito e elegante e necessário para conservar-se fechado e desprezado. Até os amadores perderam as esperanças de representar. São caras conhecidas e ninguém os quer ver em scena. Paciência”.

A esta indiferença acrescentar-se-ia, dois anos mais tarde, em 1908, um novo rival: “Está funcionando em nosso Theatro, desde sabbado p.p., um optimo cinematographo com instalações electricas, o qual rivalisa com os melhores de nossa capital. Este alegre genero de diversão, não somente por ser o da moda, como também uma novidade para esta cidade, tem attrahido boa concurrencia às funções”. (A Vida, 15-4-1908).

Realmente, o advento do cinema iria trazer um profundo golpe às representações teatrais. Aqui poder-se-ia marcar o início da linha declinante do teatro mogiano. O que se segue, pelos anos seguintes, foi a utilização do Teatro para exibições do “cinematographo Kaurt”, conferências, bailes (já a partir de 1912), festividades civis, banquetes, saraus. Raras foram as encenações teatrais que pudessem atrair para o Vasques “enchentes de truz”. Mesmo com a reforma completa do velho teatro, em 1915, as poucas apresentações dramáticas quase sempre ficaram a cargo de amadores locais, como a “Sociedade Dramatica Particular”, dirigida pelo maestro João Julião.

Em 1922, graças à intervenção de Sylvio Vieira, então já famoso barítono mogiano, a “Tosca” era encenada pela Companhia Nacional de Opera Lyrica, anunciando um novo impulso que iria também desvanecer-se nos anos seguintes.

Em 1927, o teatro já não era mais cinema. E somente aqui, como no ano seguinte, é que o Teatro Vasques reencontrou o prestígio dos primeiros anos. É a época de Pedro Celestino, Celeste Reis, Zaira Cavalcanti, Vicente Celestino, que durante dois meses apresentaram “O Juriti” (de Viriato Correia) e “Comida meu Santo”, marcadas pelo sucesso das músicas “Jura” e “Chuá-Chuá”. Mas, este reflorescimento foi efêmero demais. Diríamos que foi o último alento. A decadência se efetua uma vez mais até 1935, quando a agonia final era anunciado laconicamente nas páginas de “O Liberal” – “TACTO VASQUES: Esta antiga casa de diversões será transformada em Paço Municipal onde deverá funcionar a futura Câmara Municipal bem como o Gabinete de seu Presidente e demais funccionários da mesma. Desse modo as futuras sessões da Câmara poderão ter assistência concorrida o que não é possível no actual prédio dado a sua exiguidade de espaço (17 de novembro de 1935).

MÁGOAS E ESPERANÇAS

Nestes anos de história do teatro mogiano, numa linha oscilante de ascensão, estagnação e queda, constante no gráfico de sua existência, não podemos deixar de considerar o Teatro Vasques como marco cultura de uma época. Marco que não só ficou na memória dos saudosistas, mas que se tornou testemunho indelével de um passado.

Fruto da sua época, expressou tão bem uma era de florescência e prazer quando Mogi era uma cidade de aparência rústica e o teatro uma escola de mora.

Estamos em 1966. O Teatro Vasques não existe desde 1935. Trinta e um anos nos separam de sua extinção, trinta e um anos de isolamento total da arte dramática. Nunca mais Mogi teve um Teatro, ainda incrível que pareça. O “velho Vasques” ainda mantém o privilégio do pioneirismo, numa época em que as idéias novas, gente nova, não venceram a inércia para se construir uma casa de espetáculos que uma cidade de cem mil habitantes já faz por merecer.

Ao “velho Vasques” só lhe restará viver na eterna lembrança.

Mas o teatro mogiano não morreu. Um novo alento começa a transparecer no trabalho de um grupo de moços a prometer esperanças no futuro: o Teatro Experimental Mogiano que, num trabalho recheado de idealismo e arrojo, está pretendendo suprir a lacuna legada pelas gerações que os antecederam. É nesta conquista de jovens que residem as aspirações de um povo que, sobretudo, almeja restaurar a grandeza do teatro mogiano, transmitindo aos moços de hoje a herança do “Teatro Vasques”, o “templo de Arte Dramática”.

* Alunos: Ana Schink, Antonio Elizabeth B. Carvalho, Ari Dirceu Silva, Benedito G. Oliveira, Benedito B. Vilela, Cláudio M. Machado, Elizabete Yoshida, João Francisco Melo, John Ulic Burke, José Francisco Kapsevicius, Kazuko Nakazawa, Leila Maria R. Daibs, Leni Aparecida Paschoal, Lídia M. Jaway, Luzia K. Nakayama, Mac Arthur F. Machado, Maria Antonieta M. Simoni, Maria Cilene Arias, Maria de la Soledad F. Martin, Maria Elena Gran, Maria Elizabeth da Silva, Maria Ignez M. Novais, Maria Inês F. Conceição, Michiko Miwa, Midori Yoshizaki, Neide Nakamura, Norimar A. Fernandes, Pedro Nunes Neto, Samuel M. Shimanuki, Sandra Z. Canto, Walter Padgurschi e Wilma Shibata.

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