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Minha infância na Fazenda Rodeio

Ele era um homem de personalidade forte. Forte e centralizador. Centralizador e austero. Austero e severo. Severo e empreendedor. Forte, centralizador, austero, severo e empreendedor o suficiente para ter reiniciado a vida de empresário várias vezes. Assim era Christiano Peregrino Vianna. A história de sua família no Brasil começa no final do século XVIII, em Santos, onde um tio-avô era representante do armador e mercado de escravos português Jacintho Fernandes Bandeira.

Nascido na segunda metade do século XIX, Christiano Vianna viveu o auge da economia cafeeira, época em que o Brasil colhia perto de 50% da produção mundial. Melhor ainda: estava em Santos e operava na Bolsa de Café. Fez dinheiro, desentendeu-se sabe-se lá com quem e mudou-se para São Paulo. Veio com a família (a esposa Eliza, mãe de seus 11 filhos) e instalou-se na chácara de 6 alqueires do Paraíso, que tinha por eixo a atual Rua Abílio Soares.

“Havia um verdadeiro palácio onde meu avô vivia com os 11 filhos. Conforme os filhos se casavam, ele construía casas para abrigá-los. Com um detalhe: todas as casas tinham quintais pequenos, para que os netos não deixassem de freqüentar a casa do avô”. Quem fala é o advogado José Ely Vianna Coutinho, da primeira turma (1950) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, neto de Christiano. Está na sala da residência do seu irmão e professor emérito da Universidade de São Paulo, José Moacyr Vianna Coutinho. Ao lado, dona Lila, esposa de Moacyr.

Eles se reuniram há algumas semanas na confortável residência de Moacyr e Lila, no bairro paulistano do Alto de Pinheiros, para recordar a infância na Fazenda Rodeio, em Mogi das Cruzes, adquirida no início do século passado pelo avô Christiano. As lembranças são muitas. E queridas, o que testemunham duas fotografias da fazenda, emolduradas em um parede da sala. As fotos são de 1926. Moacyr tinha 2 anos, José Ely era um bebê.

“Chamava-se Sabina, nossa “fräulein” (governanta alemã), conta Moacyr. “Era brava e divertida. Costumava nos mandar abrir um buraco no terreiro em frente à casa grande da Fazenda Rodeio, enchíamos o buraco de água e tomávamos banho de lama. Vez por outra, Sabina nos mandava tomar água com lama, dizia que fazia bem para a saúde”.

“As lembranças da Fazenda Rodeio nos são muito claras”, recorda José Ely. “Da estrada de rodagem saia o caminho de acesso à fazenda”, conta Moacyr. “Como é mesmo o nome da cidade seguinte?” Guararema e Jacareí.

“Isso. Para chegar à fazenda, havia um caminho ladeado por araucárias. Quando o caminho terminava, abria-se o espaço da fazenda e, à frente, a imponência da Serra do Itapety. Lembro-me bem que, à direita, um laranjal fazia nossa diversão. Certa vez, andando pelo laranjal, quase pisei em uma cobra. Tenho impressão que era uma cascavel; me está na memória o chacoalhar. Quantas jaguatiricas, veados, suçuaranas e macacos não vi por lá”.

José Ely interrompe Moacyr: “Não só viu, como também caçou. Havia armas de caça na propriedade e nossos pai e avô nos acompanhavam nas incursões. Meu avô cuidava, depois, de preservar a caveira das caças e depositá-las como troféu na mureta que circundava a casa grande. Sob cada troféu, anotava a data e o nome do caçador”.

“Você tem razão”, interrompe Moacyr. “E ainda hoje tenho remorsos por haver atirado em uma coruja”.

Christiano Vianna, o avô, logo que se mudou para São Paulo, ainda no final do século XIX, reiniciou sua vida de empresário. Com sucesso. Em agosto de 1895 já era presidente da Junta Comercial do Estado e, com Álvares Penteado, João Pedro da Veiga Filho, Rodolfo Miranda, Antonio de Lacerda Franco, Conde Prates e Herrmann Burchard fundou a primeira Escola de Comércio da Capital. Também deu início à Cia. C. P. Vianna, dedicada a empreendimentos imobiliários. Simultaneamente, atuava como superintendente do Banco Comércio e Indústria e representava, no Brasil, os interesses da austera Casa Rothschild, os legendários banqueiros ingleses.

Mas sobrava tempo para se dedicar à família e à Fazenda Rodeio, onde cuidou de construir uma nova casa. Com piscina, o que era impensável naquela época. A propriedade em Mogi das Cruzes era tão querida pela família, que os pais de Moacyr e José Ely, o advogado Ulysses de Abreu Lima Pereira Coutinho e Nancy – filha de Christiano – acabaram por adquirir terras fronteiriças ao Rodeio. “Tínhamos uma chácara com frente para a estrada de rodagem e 40 alqueires na Serra do Itapety”, recorda José Ely. Que preserva relações afetivas com a Cidade: seu filho Miguel, carmelita, foi pároco no Convento do Carmo há alguns anos e tem compadres e afiliado em Mogi. É Frei Miguel Coutinho, hoje trabalhando em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Também Moacyr cultiva uma antiga e preciosa amizade com Crodowaldo Pavan, mogiano e, como ele, professor emérito da USP.

As últimas lembranças dos irmãos são do tempo da II Grande Guerra (1939-1945), por causa da produção de carvão de lenha da Fazenda Rodeio, para alimentar o gasogênio, invenção que tentava substituir a gasolina dos automóveis em tempos de conflito na Europa. Christiano Vianna já havia morrido e, com a morte de sua esposa Eliza, a família se desfez da propriedade.

Assumiu-a o empresário José Ermírio de Moraes (1890-1973), em nome da sua Companhia Nitro Química Brasileira. José, pai do empresário Antonio Ermírio de Moraes, superintendente do Grupo Votorantim, escolheu um funcionário de confiança para administrar a Fazenda Rodeio. Era José Lírio.

Senhor negro, calvo de olhos azuis, Zé Lírio – como todos o tratavam – cuidou da Fazenda Rodeio como se fosse sua. Reformou a casa grande, refez o pomar atrás da sede, retificou estradas internas e construiu as salas da escola primária que a Secretaria da Educação do Estado mantinha na fazenda como “escola isolada”. Até mastro para bandeira instalou no pátio, com frente para o laranjal que Moacyr Coutinho não esquece.

Assim foi por quase 20 anos, até que o empresário Leon Feffer (1902-1999), da Companhia Suzano, adquiriu a propriedade. Enquanto vivo, Feffer cedia as acomodações da fazenda para funcionários graduados passarem temporadas ou realizarem eventos familiares. Nos últimos anos, a Companhia Suzano transformou a fazenda em produtora de eucalipto para suas unidades.

Este ano, já titulada pela Nemonorte Imóveis e Participações Ltda., empresa que tem entre seus controladores, herdeiros de Leon Feffer, a Fazenda Rodeio começou a ser partilhada por empreendimentos imobiliários. Ao primeiro deles e do qual também participa a Helbor Empreendimentos, do mogiano Henrique Borenstein, deram o nome de BellaCittá. É um loteamento de mais de 725 mil m2, que comporta 644 lotes de 250 m2 cada um e reserva 80 mil m2 para áreas verdes. Todos os lotes, ao preço médio de R$ 250,00 o m2, foram vendidos antes do lançamento. E este é só o começo, com frente para os conjuntos habitacionais do bairro do Rodeio, no Jardim Maricá.

No futuro, a Fazenda Rodeio terá também condomínios residenciais de alto padrão e áreas comerciais. Das lembranças de Christiano e Eliza Vianna, de seus filhos e netos como Moacyr e José Ely, haverá tesouros como as fotos que ilustram esta página.

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