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A saga de Yaya Mello Freire

Filha de um influente político da primeira república, Manoel de Almeida Mello Freire, Yaya (Sebastiana de Almeida Mello Freire) nasceu em Mogi das Cruzes no final do século 19 (21 de janeiro de 1887). Mas viveu pouco na Cidade, logo se transferindo para uma mansão da Rua 7 de Abril cuja área ocupava metade do atual quarteirão delimitado pelas ruas 7 de Abril, Bráulio Gomes e Xavier de Toledo. Era ali, vizinha do Palácio Episcopal, à época habitado por Dom Duarte Leopoldo e Silva (onde hoje está a Galeria Metrópole e a própria Praça Dom José Gaspar) e do embaixador Macedo Soares (cuja mansão ocupava o terreno onde está hoje o Hotel Eldorado na Avenida São Luís), que ela passava a maior parte do seu tempo. Promovia chás, recebia famílias amigas, dedicava-se a um sofisticado, para a época, estúdio de fotografia e religiosamente, todo o dia 19 de cada mês reunia seus pobres para distribuir, nos jardins da morada, alimentos e um conto de réis a cada um.

O dia 19 tinha sua razão de ser: a 19 de Março comemora-se, anualmente, o Dia de São José. E Yaya, devota de São José, prestava-lhe sua própria homenagem a cada 30 dias. Nesse particular, identificava-se muito com uma grande amiga que sempre morou em Mogi das Cruzes. Era Alice de Souza Franco, uma das filhas do Coronel Francisco de Souza Franco, rico comerciante do início do século passado na Cidade, onde exerceu forte influência política (foi intendente e presidente da Câmara dos Vereadores por muitos anos e sogro de Deodato Wertheimer, Leôncio Arouche de Toledo e de Adelino Borges Vieira). Como Yaya, também Alice mantinha, em seu solar da Rua José Bonifácio (ainda hoje de pé) uma capela à qual acorria, nos dias 19, amigos e devotos para a celebração da missa. Os poucos contemporâneos de Yaya ainda sã não negam que ela sempre demonstrou grande dedicação religiosa: a todos os amigos convidava para as missas na capela de sua residência da 7 de Abril e, aos que faltassem, não esquecia de enviar uma fotografia do evento.

Nos fins de semana, até pouco antes de 1919, era comum Yaya viajar para Mogi das Cruzes onde possuía a Chácara da Yaya, até a década de 1970 ponto de referência da Cidade e que abriga, atualmente, o Centro Cívico e todas as repartições públicas e universidades. Sua propriedade ia da atual Avenida Narciso Yague Guimarães às margens do Rio Tietê. Yaya também viajava à Europa, nunca perdendo um leilão ou uma exposição de arte. De seus objetos de estimação, um dos que mais a orgulhavam era um cartão oferecido pelos incentivadores do movimento artístico paulista em reconhecimento pelo que fez em favor das artes.

Pelas ruas da São Paulo do começo do século passado Yaya circulava sempre em um Chevrolet negro, percorrendo muitas das mansões da então residencial Avenida Paulista, onde eram comuns os saraus artísticos.

PROBLEMAS – Os problemas de Yaya surgiram nos primeiros anos da década de 1910: ela viajou para a Europa e, dizem, teria enfrentado, em Paris, os bombardeios da I Guerra Mundial, chegando mesmo a trabalhar como enfermeira. Quando retornou e após se curar da Gripe Espanhola, começou a apresentar problemas mentais. Até que, em 1919, foi interposto junto à 4ª Vara da Família e Sucessões da Capital o processo de interdição de Sebastiana de Mello Freire, com base em laudos médicos que indicavam sua situação de mentalmente incapaz. Hoje tem-se a versão de que, na realidade, Yaya passava por uma depressão;não mais do que isso.

Mas, deferido o pedido de interdição, Yaya mudou-se com os serviçais que passaram a cuidar de sua sobrevivência para uma outra mansão da Rua Major Diogo, 353, que ainda resiste, embora tenha perdido a maior parte de seus jardins para a construção do viaduto de interligação do Elevado Costa e Silva com a Avenida Radial Leste. Na casa, curador e serviçais cuidaram de instalar o que parecia ser a maior comodidade possível para a jovem rica e interdita: à construção original foi acrescido um verdadeiro apartamento de paredes almofadadas, portas lacradas, camas de cimento presas ao solo, banheiros resistentes, luzes protegidas por telas de arame e um solário com paredes de 1,6 metro de altura encimadas por vidros e, sobre estes, novas telas de arame.

Os problemas para se cuidar de Yaya eram muitos: desde a necessidade de uma anestesia geral para o tratamento dentário até o cuidado extremo com sua segurança. Uma senhora mogiana que a visitou quando menina e que a ela teve acesso pela pequena janela de seu refúgio, Yaya tratava como “Santa Gema... Santa Gema veio me visitar”. Não reconhecia quase ninguém, nem mesmo os vizinhos de sempre, muito menos as famílias amigas. Não havia mais as missas de todo dia 19.

HERDEIROS - Foi assim a sua vida durante 41 anos, até a morte em 4 de setembro de 1961, após uma rápida internação no Hospital São Camilo, onde permaneceu 13 dias e morreu de insuficiência cardíaca. Foi enterrada no Cemitério da Consolação, ao lado do pai.

E começou, então, a procura de parentes e herdeiros.

De parentes, havia apenas a informação sobre um irmão que morreu misteriosamente em uma viagem à Europa: teria se jogado da escotilha do navio. As irmãos ela perdera ainda sã. Casamento nunca houve, nem mesmo em planos de uma mulher beata que preferiu sempre a devoção à Igreja Católica. Nessa época houve quem lembrasse de um outro irmão, natural, que certa vez apareceu na casa da Rua Major Diogo pedindo dinheiro para internar a filha doente. Mas também este não foi encontrado.

Assim, não comprovado o direito de muitas pessoas que se habilitaram à herança jacente, ela foi declarada vacante em janeiro de 1969 e todo o seu patrimônio transferido para a Universidade de São Paulo, de onde partiu uma das poucas demonstrações de gratidão em todo o processo.

Em carta ao juiz Odyr José Pinto Porto, declarava o reitor em exercício da USP, Hélio Lourenço de Oliveira: “... nesta oportunidade, prestar modesta homenagem à memória da falecida, cujo sacrifício favoreceu a mocidade estudantil desprovida de recursos que demanda os diversos cursos universitários. A USP cuidará do patrimônio com a responsabilidade que lhe cabe e fará com que ele sirva aos estudantes tanto quanto não pode servir à desditosa interdita”.

PATRIMÔNIO – Quando morreu, Yaya deixou um patrimônio avaliado, em 1968, em US$ 4 milhões. Apenas a aplicação da desvalorização monetária – o dólar também tem inflação, ainda que pequena – pode-se chegar a cerca de US$ 30 milhões atuais. Isto, entretanto, não expressa os números do patrimônio legado.

No início do século passado, o patrimônio de Yaya era avaliado em mais de 10 vezes o orçamento municipal de Mogi das Cruzes – conta que nos levaria a cerca de US$ 1,6 bilhão. Também isto é apenas um jogo matemático, pois é preciso agregar ao patrimônio a valorização imobiliária.

Para se ter uma idéia do que esta valorização significa: em Mogi das Cruzes, em 1989, o mercado imobiliário oferecia áreas na Vila Oliveira, o bairro mais nobre da Cidade, por US$ 15 o metro quadrado. Hoje, essas mesmas áreas são negociadas acima de US$ 100 o metro quadrado. Uma valorização real de mais de 500% em 16 anos. Yaya morreu há 34 anos.

O patrimônio que deixou incluía, além dos 36 alqueires (871.200 metros quadrados) da Chácara da Yaya, nas vizinhanças de onde está o Mogi Shopping; incontáveis imóveis na cidade e na Capital.

Havia, por exemplo, o prédio de 15 apartamentos na Rua Dr. Mello Alves, na valorizada região dos Jardins, em São Paulo. Um outro prédio de 4 apartamentos e 2 lojas na também valorizada Rua Augusta, 1194. Uma fileira de 27 residências na Rua do Hipódromo, próximo à Estação Roosevelt, em São Paulo e outras 7 casas na Rua Conselheiro Justino. Na Rua São Caetano, proximidades da Estação da Luz, Yaya tinha mais 7 casas; outras 8 na Rua Piratininga. Havia também 6 casas na Rua Visconde de Parnaíba e outro tanto na Rua Prudente de Moraes. Na Rua Correa de Andrade tinha uma casa e na Martin Buchard outra. Tinha casas na Rua Campo Salles (1); Avenida Brigadeiro Luiz Antonio (1); Rua Maria Antonia (1); Rua Pirineus (2); Rua Brigadeiro Galvão (3); a casa onde residia na Rua Major Diogo e a maior parte do edifício Veneza na Rua Bráulio Gomes, construído onde estava a mansão em que vivia antes da interdição.

Em Mogi das Cruzes, além da chácara, um terreno na Rua Capitão Paulino Freire; quase um quarteirão na Rua Senador Dantas; 2 casas na Rua Cardoso Siqueira; 1 na Rua Senador Dantas e outras na Rua Coronel Souza Franco (3); Rua Barão de Jaceguai (1); Rua Capitão Paulino Freire (1) e um sítio de 87 alqueires (2,1 milhões de metros quadrados) no município de Biritiba Mirim.

Em depósitos bancários legou o equivalente a US$ 35 mil (US$ 260 mil em valores atuais) e inúteis 12 obrigações de guerra de mil cruzeiros cada uma.

DISPUTA – Morta Yaya, poucos se preocuparam em cuidar da sepultura do Cemitério da Consolação e, no processo do espólio, seus antigos serviçais reivindicaram à Justiça a liberação de recursos pequenos para cuidar do local. Ninguém se lembra mais dela nas missas de São José.

Mas, em se tratando da disputa pela herança, esta não foi pequena. E envolveu grandes interesses. Bastava ter Almeida, Mello ou Freire no sobrenome para que uma ponta de esperança alimentasse os sonhos de riqueza de dezenas de moradores de Mogi. Foram poucos os que, efetivamente, se habilitaram no processo. Nenhum teve sucesso. E dos volumes do processo que, juntos, formam uma pilha de metro e meio de papel, nada mais resta além da certeza jurídica de que não há herdeiros de Sebastiana de Mello Freire, a rica mogiana que gostava de artes, era devota de São José e viveu interdita por 42 anos.

A minha herança de Yaya

De Yaya Mello Freire escuto falar desde que me entendo por gente. Seu pai veio ter a Mogi das Cruzes à época de meus tataravôs. Foi amiga de meus bisavós e Yaya íntima de minha avó. Eram vizinhos em Mogi das Cruzes. E também em São Paulo, para onde meus avós se mudaram logo após o casamento, na primeira década do século passado, e onde tiveram os primeiros dos 10 filhos. Foram morar na Rua Bráulio Gomes, junto à antiga mansão de Yaya. Vizinhos do Palácio Episcopal e de Macedo Soares. De vizinhos a compadres era apenas uma questão de tempo.

Assim como Macedo Soares foi padrinho de uma de minhas tias, Yaya foi madrinha de um de meus tios.

Quando viajou para a Europa, no início da década de 1910, Yaya despediu-se de minha avó Nenê, então grávida, com um recado: “Vou batizar essa criança, espere por minha volta”.

Promessa é dívida.

E assim foi feito. Retornando da Europa, naturalmente de navio, Yaya aproveitou a escala na Ilha da Madeira para comprar uma camisola de renda feita à mão. Muito rica e com uma larga fita que, por precaução, poderia ser trocada. Azul para um menino; rosa para uma menina. A camisola era presente para Nenê e deveria vestir a criança que Yaya batizaria no dia da bênção inicial.

Pois a camisola da Yaya vestiu Benedicto Leôncio, o Tico, no seu batizado. E todos os descendentes de Nenê a partir de então. Filhos, netos, bisnetos, tataranetos. Quatro gerações à beira da quinta, sempre trocando apenas a fita. Azul ou rosa.

A camisola puiu nas costas várias vezes. E tantas quantas puiu foi recuperada. A renda persiste. Depois de vestir toda essa gente, ela está guardada em casa. Espera pelos netos.

É tudo do que eu preciso para ter viva a lembrança de mais de um século de história.

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