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O SONHO ACABOU.

Quando o conjunto inglês The Beatles se dissolveu, parecia que tudo havia acabado para os jovens dos anos 60. No Brasil, entretanto, os estudantes ainda acreditavam que era possível mover o mundo com uma alavanca. E iam às ruas defender suas idéias. Gritavam, dançavam rock e twist. Discutiam política. Para eles

O SONHO NÃO ACABOU

Sérgio Roberto Correa é um mogiano. Nasceu aqui no dia 27 de julho de 1941, filho do sr. Benedito e de dona Helena, irmão de Tom e Zé. Fez o curso Primário na Cidade, o Secundário e o Colegial no Instituto de Educação “Dr. Washington Luís”. A um tempo, meados dos anos 60, mudou-se para São Paulo e para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Vinha sempre a Mogi visitar os pais, irmãos, os amigos. Até que, em 1967, fez sua última visita. Uma visita rápida. E nunca mais foi visto. Neste domingo começa a ser publicada a reconstituição dessa história e de muitas outras que envolveram jovens de Mogi naqueles anos rebeldes de oposição ao regime militar.

Não dá para esquecer o último encontro que tive com Serginho. Na verdade, eu e Sérgio Roberto Correa não fomos aquilo que se pode chamar de amigos próximos. Seis anos mais velho do que eu, Serginho fez o Colegial no Instituto de Educação “Dr. Washington Luís” ao tempo em que eu frequentava o Ginasial no Liceu Braz Cubas. Quando cheguei ao Instituto para o Colegial, ele já estava em São Paulo, frequentando os corredores da Maria Antônia, como conhecíamos a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.

Mas, em uma Cidade de menos de 80 mil habitantes, todos os jovens estudantes se conheciam. E Serginho era contemporâneo de meu irmão, Guilherme, no Instituto.

Pois naquela manhã de 66 em que encontrei Serginho para um programa estudantil em uma rádio da Cidade, nós dois já havíamos vencido a etapa Colegial dos estudos. Eu estava entrando na Faculdade de Direito, um calouro; ele tinha muito a falar sobre os estudos em São Paulo. Àquele tempo, com apenas duas faculdades (Direito da Braz Cubas e Filosofia da OMEC), Mogi mandava muitos dos seus jovens para as escolas da Capital. E todos se conheciam, dividiam repúblicas, pratos-feitos e falta de dinheiro em São Paulo.

O programa de rádio, dirigido pelo Cid Jardim, tratava de tudo o que, supúnhamos, interessasse aos estudantes. E Serginho estava ali para falar de suas experiências no Grêmio Estudantil “Ubaldo Pereira”, do Instituto, das dificuldades em enfrentar a vida na Capital (nesse ano, obteve uma bolsa de 75% no Cursinho da Filosofia/USP) e do dia-a-dia. Ele tinha 25 anos.

Os jovens de Mogi, nesse ano (1966), começavam a viver uma nova rotina. Até então, o movimento estudantil da Cidade era totalmente apolítico, dominado por secundaristas que se dedicavam às competições esportivas da Braz-Col (uma olimpíada entre o Liceu e o Instituto) e à rivalidade entre as duas fanfarras, que se digladiavam nos campeonatos promovidos pela TV Record. A mesma emissora que movimentava a juventude brasileira com seus festivais de MPB, lançando Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Nara Leão e Elis Regina no meio artístico.

A rotina alterada pela consciência política expressada nos festivais de música e transmitida pela televisão branco e preto era reforçada em Mogi pelo surgimento dos primeiros cursos superiores. Até então, o jovem mogiano interessado em uma faculdade tinha de procurar as escolas da Capital.

A mudança começou em 65, com a instalação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da OMEC, evolução do pioneiro curso de admissão ao ginásio instalado em 1962 por Manoel Bezerra de Melo e que caminhou, em seguida, para o Ginásio Diocesano. Em 66, a Sociedade Civil de Educação Braz Cubas instalou a sua primeira faculdade, a de Direito.

Os dois primeiros cursos superiores trouxeram consigo professores da Capital e passaram a irradiar pela cidade provinciana – e por sua juventude – o espírito universitário.

A isso coincidiu a evolução do TEM – Teatro Experimental Mogiano, reconhecidamente um núcleo de debates e do Clube de História “Professor Jair Rocha Batalha”. Paralelamente, decaíam as competições da Braz-Col e das fanfarras. Os interesses dos jovens eram outros. Eles discutiam os rumos da política brasileira, iam às estações da Estrada de Ferro Central do Brasil ver passar a Caravana da Esperança.

A Caravana foi um trem que o ex-governador carioca Carlos Lacerda idealizou para percorrer o interior do Brasil em 1967 na difusão da Frente Ampla, movimento político que defendia a democracia, eleições diretas para a Presidência da República e tinha, como líderes principais, além de Lacerda, os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart. Na política local, os espaços eram divididos entre o prefeito de então, Carlos Alberto Lopes e o seu vice-prefeito, opositor ferrenho, Waldemar Costa Filho. O ano de 66 foi de eleição federal e, pela primeira vez desde os anos 30, a Cidade via um residente ser conduzido ao Congresso: Manoel Bezerra de Melo, que havia feito campanha em dobradinha com Chiquito Franco, deputado estadual com laços familiares na Cidade.

Este conjunto de “coincidências” marcou em definitivo a juventude de Mogi das Cruzes, que já vinha recolhendo experiências de atuação política. No golpe de março de 64, por exemplo, alguns alunos do Instituto de Educação chegaram a ser presos. Foi o caso de Kunio Suzuki, então matriculado no 3º ano clássico e apanhado como colaborador do Sindicato dos Metalúrgicos. De volta ao Brasil após anos na Europa e na África, Kunio Suzuki lembrou essa época como algo muito distante:

“Eu tinha feito campanha nas eleições do Sindicato dos Metalúrgicos. Lembro-me, dessa época, de vários companheiros. Fiquei preso uma semana em um processo que não foi em frente” disse-me ele próprio há algum tempo.

1968 foi um ano complicado. Nele aconteceu de tudo. Logo no início do período letivo escolar, uma manifestação no Rio de Janeiro resultou na morte de um estudante secundarista – Edson Luís de Lima Souto. Era o cadáver que os líderes estudantis mais radicais precisavam para deflagrar um processo de sucessivas manifestações públicas. Também em 1968, as organizações clandestinas, como a Aliança Libertadora Nacional (ALN) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), ampliaram suas ações de resistência ao regime militar. Eram assaltos a bancos para coletar fundos que sustentassem a clandestinidade de seus membros. Havia atentados a bomba e uma ação governamental forte de combate a tudo, que desaguou na edição do Ato Institucional nº 5, em dezembro. Nesse ano, informam os arquivos do antigo DOPS – Departamento de Ordem Política e Social da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, o mogiano Serginho Correa participou das primeiras ações como integrante da ALN.

O Diretório Acadêmico 1º de Setembro da Faculdade de Direito Braz Cubas funcionava, em 1968, numa casa alugada na Rua Santos Cardoso. Era ali que seu presidente na época, o atual procurador de Justiça aposentado e professor universitário Euclides Ferreira da Silva Junior, conduzia as reuniões da diretoria e todos idealizavam as ações da entidade. Em fevereiro de 1968 pensou-se em um trote de recepção aos calouros da faculdade que rompesse a violência tradicional dos cortes de cabelo. E imaginou-se uma passeata para sábado (30 de março) pelas ruas da Cidade no mais puro estilo das “peruadas” da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Mas...

Na quinta-feira, dia 28, no Rio de Janeiro, morreu o estudante Edson Luís de Lima Souto. A sexta-feira toda foi dedicada pelos estudantes da Faculdade de Direito Braz Cubas e do Diretório Acadêmico 1º de Setembro a debater o que fazer com a passeata de sábado. Suspendê-la? Mantê-la?

Decidiu-se, no início da noite de sexta-feira, pela manutenção, incluindo entre seus participantes manifestações de repúdio à ação policial no Rio de Janeiro.

Em São Paulo, o clima não era diferente. O ex-deputado José Dirceu, um dos líderes do movimento estudantil em 68, conduzia, ao lado de Catarina Meloni, seguidas manifestações públicas. Paralelamente ao movimento estudantil, iam se estruturando as organizações clandestinas de resistência.

O mogiano Sérgio Roberto Correa já então integrava os quadros da Aliança Libertadora Nacional – ALN.

Um comunicado sigiloso, da Divisão de Informações do DOPS afirma:

“Consta nesta Divisão uma relação de assaltos praticados por elementos subversivos-terroristas, em 1968, pela ALN, figurando o marginado (N.do A.: Sérgio Correa), no atentado a bomba contra a casa do diretor do Parque da Aeronáutica, em 1971, tendo sido considerado como morto”.

Sérgio era conhecido, no movimento de resistência, pelo codinome “Gilberto”. Esse informe da Divisão de Informações do DOPS é apenas um dos indícios de sua morte em ação. Como se verá na sequência desta série, muitos outros fatos irão confirmar – e desmentir – isso.

Em São Paulo, Serginho alterava sua rotina de vida dividindo-se entre as aulas na Faculdade de Filosofia, o trabalho no cursinho da Filosofia e no cursinho Equipe. Nesses locais era visto sempre em companhia de Ichiro Nagami, personagem que terá muita importância a seguir. Era, também, amigo de Hans Hudolf Jacob Manz, outro personagem importante na sequência desta série para definir a trajetória do mogiano Serginho Correa.

Em São Paulo, Sérgio encontrava-se esporadicamente com outros mogianos. “A esse tempo – disse-me Kunio Suzuki, contemporâneo do movimento estudantil – eu frequentava o curso de História na Universidade de São Paulo, fui preso duas vezes em manifestações estudantis e, em dezembro de 1968, acabei entre os 2 mil estudantes presos na desocupação do CRUSP – Conjunto Residencial da USP –, onde morava. Até hoje não sei o motivo, mas fui o último a ser solto. E acabei indiciado nesse processo”. O CRUSP, em 68, foi ocupado literalmente pelos estudantes que o mantinham como “território livre”. Mas, em dezembro, coincidindo com a edição do AI-5, forças do Exército retomaram os prédios e seus pátios, prendendo 2 mil estudantes. Entre eles, vários mogianos como Kunio Suzuki. Sérgio Correa não estava lá.

Como também não esteve na ação de Sabaúna, onde explosivos foram levados da Pedreira Rochester. Um dos participantes dessa ação, Denisson Luiz de Oliveira, na época com 21 anos, declarou ao DOPS que “Gilberto”, o codinome de Sérgio, era integrantes da ALN, mas não esteve em Sabaúna. Afirma Denisson, entretanto, que a ação no distrito de Mogi das Cruzes foi liderada pelo ex-capitão do Exército Carlos Lamarca.

Um mês antes do AI-5 e da desocupação do CRUSP, em novembro de 1968, Sérgio Correa encontrou-se com Aimar Biu na residência de Hans Manz para um curso sobre explosivos. A informação foi dada pelo próprio Aimar também aos serviços de segurança do governo.

Em Mogi das Cruzes, o ano de 68 terminou com a eleição de um novo prefeito: Waldemar Costa Filho.

A edição do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968, e a forte reação aos movimentos formais de resistência ao regime militar provocaram, a partir do início de 1969, um divisor de águas, principalmente entre os jovens. De um lado, o grupo de estudantes que optou por seguir os estudos e iniciar uma carreira profissional; de outro, aqueles que se engajaram nos movimentos de resistência e ingressaram nas organizações que iam se formando. Sérgio Roberto Corrêa estava entre estes.

Integrante da Aliança Libertadora Nacional, seu nome é citado como participante de várias ações empreendidas pela organização nos anos de 1968 e 1969. Ao todo, foram 24 atos creditados à ALN. Sérgio é citado em vários, mas a comprovação de sua participação fica por conta, apenas, de depoimentos hoje arquivados. Sérgio nunca foi preso, e os membros da organização ouvidos pela polícia, na época, colocaram-no, em 1969, nas seguintes ações:

Abril – Atentado a bomba contra a residência do diretor do Parque da Aeronáutica.

Junho – Atentado a bomba, pela segunda vez, contra a residência do diretor do Parque da Aeronáutica; ação contra o Banco do Brasil, agência de Utinga; atentado a bomba contra a Companhia Brasileira de Investimentos, no Vale do Anhangabaú.

O fato de nunca ter sido preso torna impossível confirmar a presença de Sérginho em todas essas ações. Pelo menos um dos participantes do atentado de junho contra a CBI garante que Sérginho não esteve envolvido diretamente na ação. “Talvez ele formasse na equipe de apoio, incumbida de dar cobertura àqueles que ingressaram no prédio, como eu. Ali, eu não vi o Sérgio”. Essa questão é importante por conduzir a algumas conclusões. Esse mesmo personagem, hoje advogado em São Paulo, com família formada, fez parte do GTA – Grupo Tático Armado da Aliança Libertadora Nacional e participou da ação contra a agência do Unibanco em Suzano, em maio de 1969. Nessa ocasião houve tiroteio e morreu o investigador de polícia José de Carvalho. Em dezembro de 1971, quando foi morto Carlos Eduardo Pires Fleury, também dos quadros da ALN, a polícia informou que Carlos, conhecido na organização como “Humberto”, foi o responsável pelo tiro que atingiu o investigador. O personagem, que não viu Sérginho no prédio da CBI, também não viu Carlos no banco de Suzano.

“Eu fui ferido nesse dia e é impossível determinar de qual arma saiu o tiro; foi tudo muito confuso depois que apareceu aquela viatura policial. Além do mais, nós não andávamos armados. Quando havia ação, recebíamos a orientação e as armas. Sabíamos que havia equipe de cobertura, mas não sabíamos quem a integrava. Depois da ação, que ao todo envolvia cerca de 20 pessoas, das quais apenas três ou quatro tinham participação direta, saíamos em um carro e, algum ponto depois, deixávamos armas e dinheiro nesse carro e tomávamos outro. Nesse dia, o Carlos Fleury não estava dentro do banco”.

A primeira referência a “Gilberto”, codinome de Sérgio Roberto Correa na ALN, disponível nos arquivos pesquisados, foi feita em 6 de novembro de 1969. Nesse dia, o estudante Celso Antunes Horta Júnior descreveu “Gilberto” como “pessoa de estatura média, magro, aparentando 25 anos de idade e usando bigodes de tamanho normal”. Quando os policiais lhe apresentaram uma foto de Sérgio, ele não o identificou como “Gilberto”.

Em setembro de 1969, quando explodiu o Volkswagen na Rua da Consolação e Sérginho desapareceu, todos os seus companheiros passaram a alimentar a convicção de que ele era o ocupante do carro e que não foi identificado.

A estação de trens de Jundiapeba ainda hoje registra um movimento pequeno. Mas, em setembro de 1969, ele era ainda muito menor. Pois é nessa época – dia 11 – que os arquivos disponíveis relatam que várias pedras colocadas sobre os trilhos causaram dois acidentes perto da estação de Jundiapeba, distrito de Mogi das Cruzes.

As notícias sobre várias ações contra bancos chegavam a Mogi das Cruzes, em 1969, apenas por meio dos jornais, rádio e televisão. Parecia até que a região estava vacinada contra esse tipo de ação.

Até que...

Foi em maio de 1969. Um grupo, depois identificado como pertencente à Aliança Renovadora Nacional programou um assalto à agência da União de Bancos Brasileiros em Suzano. Durante a ação, o investigador de polícia José de Carvalho morreu.

Sua morte foi creditada a Carlos Eduardo Pires Fleury, conhecido nos quadros da ALN como “Humberto”, “Teixeira” ou “Quincas”, integrante do Grupo Tático Armado da organização. Carlos foi preso em setembro de 1969 em São Paulo e responsabilizado por dois atentados contra a residência do diretor do Parque da Aeronáutica em São Paulo (abril e junho de 1969) e por várias ações em banco, inclusive a do Banco do Brasil em Utinga (julho de 1969).

Em junho de 1970, Carlos Eduardo foi banido para a Argélia. Ele era aluno da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP até 68 e morreu em dezembro de 1971 no Rio de Janeiro. Segundo a polícia, reagiu quando abordado em um Dodge Dart roubado, localizado no bairro do Meier. Tinha 26 anos.

Naquela madrugada de 4 de setembro de 1969, o cruzamento das ruas Maria Antônia e Consolação, em pleno centro de São Paulo, vivia um típico amanhecer paulistano: fazia frio, garoava e poucos carros obedeciam ao semáforo. Não foi o caso do sedan Volkswagen azul, com as placas 44-52-75. Ele parou no sinal vermelho. Em seguida, explodiu.

Os destroços do carro, totalmente destruído, espalharam-se por dezenas de metros, levando junto restos humanos. Todos os vidros de um edifício de quatro andares, a 50 metros do local da explosão, foram quebrados. Uma das portas do carro caiu no estacionamento de uma repartição pública, distante 100 metros do cruzamento.

O motorista do Volks, com as duas pernas amputadas, foi encontrado ainda com vida. Era Ichiro Nagami. Seu companheiro, não identificado, morreu na hora.

A polícia, tão logo identificou o proprietário do veículo – Ichiro –, correu ao seu apartamento, no 6º andar do prédio 619 da Rua Jaguaribe. Lá, prendeu um amigo e os professores Francisco Roberto Savioni e Suziko Seki, do cursinho “Equipe”. E recolheu, no apartamento, mais de 50 quilos de cartuchos de dinamite, identificados como parte da carga roubada em dezembro de 1968 na Rochester, localizada no distrito de Sabaúna, em Mogi das Cruzes.

Osmar de Oliveira Rodello Filho foi preso em Mogi das Cruzes em 1969. Uma carta sua:

“Para eu passar dos movimentos estudantis às organizações terroristas, o caminho foi curto. O argumento de que era preciso conseguir dinheiro levou-me a passar um estágio muito mais comprometedor em relação ao movimento de esquerda. Sem parar nem uma vez para pensar no que ia fazer e para pesar as conseqüências dos meus atos, comprometi-me totalmente com a subversão. O único fato que poderia tirar-me daquele desenfreado e irresponsável procedimento aconteceu pouco depois de ter cometido ato pelo qual hoje respondo a processo (assalto a banco): fui preso”.

O laudo de necropsia assinado em 4 de setembro de 1969 pelos médicos legistas José Gonçalves Dias e Paulo Augusto de Queiroz Rocha, descreve o estado em que ficou o corpo do companheiro de Ichiro Nagami, morto também na explosão do Volks da Rua da Consolação. Tem o nº 30.107:

“... 3) exame externo – sobre uma das mesas de aço do necrotério jazia um amontoado de partes e fragmentos, múltiplos e disformes, de pele, músculos, ossos e outras estrutura orgânicas, que no conjunto permitiram identificá-las como peças de um corpo humano. A violência e a maneira de atuar do agente agressor transformou um corpo humano num amontoado de partes, de tamanho e formas variadas, fragmentadas, destruídas, deformadas, contundidas, queimadas, dilaceradas, fraturadas, com total alteração da sua estrutura morfológica. O exame permitiu visualizar:

a) dois segmentos de membros inferiores – os pés, parcialmente íntegros, com os terços inferiores das pernas fraturadas. Estas peças recobertas de pele e pelos com distribuição, quantidade e tipo característicos do sexo masculino, apresentavam numerosos ferimentos e queimaduras, notadamente as partes das pernas;

b) parte do tronco traduzida pela presença dos segmentos cervical e torácico da coluna fraturados, mas unidos pela musculatura vertebral. Junto a esta porção de coluna, achavam-se partes de alguns arcos costais posteriores fraturados;

c) via-se, parcialmente íntegro, o tegumento cutâneo, de cor branca, com pilosidade característica do sexo masculino, correspondente à porção inferior da nuca e a face posterior do tórax. Esta porção de pele, recobrindo os segmentos da coluna cervical e torácica, porções de arcos costais posteriores fraturados e musculatura da face posterior do tronco, formando uma peça única, constituem o maior fragmento corporal, entre os demais;

d) vários fragmentos de pele, de formas e tamanhos vários, sendo que um de maior tamanho, apenso ao tegumento da face posterior do tórax, pode ser identificado como um dos retalhos da face anterior do tórax, vendo-se a região mamária e mamilo, com características do sexo masculino;

e) dos órgãos internos, podemos reconhecer, em meio àquela massa desintegrada, partes do fígado, baço, alças intestinais, pulmões, coração, reconhecíveis por guardarem partes com estrutura morfológica e coloração íntegras ou pouco alteradas;

f) o couro cabeludo, com as peças do arcabouço ósseo totalmente fraturado e segmentado, foi transformado em múltiplos segmentos. Os cabelos eram pretos, lisótricos, abundantes, mas não compridos. Uma multiplicidade de peças ósseas, fraturadas, segmentadas. Unidas às partes musculares, tecido celular subcutâneo e pele, não permitiam identificá-las decisivamente;

g) podemos identificar e isolar entre as peças e partes examinadas apenas um segmento do dedo de uma das mãos, parcialmente íntegro;

h) conseguimos ainda identificar uma formação cilíndrica endurecidas, esbranquiçada, medindo sete centímetros de cumprimento, tendo uma extremidade afilada e outra ligada às partes musculares e fragmentos ósseos. Aos cortes transversais, foi possível visualizarmos, distintamente separadas por tecido fibroso, duas formações estruturais, identificadas como corpos cavernosos. Esta peça constituía o pênis, o que veio positivar tratar-se de partes de um cadáver do sexo masculino;

i) nos fragmentos de pele íntegros ou em outras partes examinadas, não observamos marcas ou sinais não estruturais, tais como lesões cicatrizadas, tatuagens, etc.

Identificado pelas declarações de companheiros presos, Sérgio Roberto Correa passou a ser um nome constante no inquérito que, a partir de 1970, apurava as ações da Aliança Libertadora Nacional.

No dia 14 de janeiro, a polícia colheu o depoimento de Maria Aparecida Costa e ouviu dela a informação de que Serginho integrava os quadros da ALN. No dia 15 de janeiro, com o depoimento de Hans Rudolf Manz, fica sabendo que o suíço voltou de Cuba em setembro de 1968 e continuou morando na Rua São Fernando, onde deu três ou quatro aulas sobre explosivos para um grupo, do qual fazia parte Serginho. Segundo Hans, as aulas limitaram-se à técnica de ligações elétricas. No dia 19 de janeiro, o delegado Edsel Magnotti mandou instaurar inquérito para apurar os cursos ministrados por Hans. Nesse dia, em outro depoimento, Hans informou à polícia que Sérgio Roberto Corrêa é de família de Mogi das Cruzes e que, às vezes, dormia em sua casa.

Com a prisão de vários integrantes da ALN, os interrogatórios policiais passaram a alimentar rapidamente os inquéritos abertos. O Projeto Brasil Nunca Mais descreve com detalhes esses interrogatórios, denunciando a violência utilizada para apurar os fatos.

Foi com base nesses depoimentos que, no dia 16 de fevereiro, Serginho foi qualificado indiretamente às folhas 2.816 do 11º volume do inquérito sobre a ALN. A qualificação indireta foi feita na presença de um delegado e de um escrivão de polícia e a ela anexada uma foto 3 x 4, na qual o estudante mogiano aparece de bigode. Qualificado Serginho, foi a vez de Hans, no dia 23 de fevereiro, declarar à polícia sua suposição de que “Gilberto” (codinome de Sérgio) estaria no Volks que explodiu em setembro de 69 na Rua da Consolação. No dia 11 de março, também de 1970, Manoel Cirillo de Oliveira Neto declarou à polícia que Serginho participou da ação contra o Banco do Brasil em Utinga e que seu pseudônimo é “Gilberto”. Também em março, Viriato Xavier de Melo diz no inquérito que Serginho morava com Hans e que lhe deu um relógio para auxiliar na fabricação de uma bomba.

No dia 1º de junho, as Procuradoria Militar denunciou 137 pessoas como integrantes da ALN. Serginho, ou “Gilberto”, é a 110ª delas e, às folhas 168 da denúncia, o procurador diz em relação a ele: “É referido pelos réus Denisson Luiz de Oliveira, Manoel Cirillo de Oliveira Netto e Aton Fon Filho como membro da ALN”. Informa também que Sérgio residia com Hans, de quem é amigo.

A ação judicial prosseguiria por vários anos. No mesmo processo figurava o ex-vice governador de São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira. Nessa ação, Serginho é identificado como “componente do setor armado da ALN, tendo participado do atentado a bomba contra a CBI e do assalto ao Banco do Brasil em Utinga. Acha-se foragido. Deve responder pela Lei de Segurança Nacional”.

Estranho que, embora o único endereço disponível de Serginho nesse tempo fosse a residência de sua família, em Mogi, em momento algum os órgãos de segurança o procuraram nesse local. Pelo contrário: em 17 de fevereiro de 1972 o oficial de Justiça informa no processo que deixou de citar Sérgio por se encontrar em local incerto e não sabido. Por isso, seu nome consta na edição do Diário Oficial de 1º de março de 1972, com vários outros denunciados no processo 207. Entre eles, o ex-vice governador Aloysio Nunes Ferreira Filho.

As referências a Serginho nos arquivos do extinto Dops cresceram em 1970, ampliadas pelo suíço Hans Rudolf Jacob Manz, que na época tinha 42 anos. Depondo em janeiro desse ano, alguns dias após sua prisão, Manz declarou ter dado aulas sobre bombas e explosivos em sua casa a diversas pessoas, entre as quais Sérgio Roberto Correra.

Conhecido pelo codinome de “Gerônimo”, Manz estreou nos movimentos de esquerda em 1961, na Bahia, convidado a participar da Associação dos Trabalhadores Rurais, onde chegou a orientador dos grupos de camponeses.

Perseguido pela polícia, ele viajou para Cuba e Checoslováquia, por volta de 1966. Nessa época, já havia travado contato com outros líderes do movimento: Carlos Marighela e Joaquim Câmara Ferreira. Em Cuba, fez cursos de guerrilha e tornou-se especialistas em explosivos. Na Checoslováquia, estudou comunismo. Durante nove anos, Rudolf Manz foi militante do Partido Comunista Brasileiro.

Ex-estudante do curso Científico do Instituto de Educação “Dr. Washington Luiz”, Antônio Benetazzo morou em Mogi por cerca de quatro anos. Veio sozinho. Em Caraguatatuba, deixou a família de imigrantes italianos que atuavam no comércio. De Mogi, foi para São Paulo, onde matriculou-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, nesse tempo funcionando num velho casarão da Rua Maranhão, em Higienópolis. No segundo semestre de 1972, ele desapareceu. Tinha 31 anos. Companheiros dessa época dizem que foi preso pelos órgãos de segurança. O projeto Brasil Nunca Mais informa que ele morreu sob torturas.

O laudo de exame necroscópico realizado dia 6 de novembro de 1972, no Instituto Médico Legal de São Paulo, assinado pelos legistas Isaac Abramovite e Orlando J.B. Brandão, informa que ele morreu atropelado:

“Realidade da Morte: a morte se evidenciava pela presença dos clássicos sinais tanatológicos de certeza. Exame externo: cadáver de adulto, do sexo masculino, de cor branca, altura aproximada de 1,80 metro, peso aproximado de 80 quilos, panículo adiposo regular, compleição médica, íris castanhas, dentes próprios e conservados, bigode aparado e barba raspada. Ao exame, apresenta: 1) escoriações generalizadas no rosto, tórax, abdômen, membros superiores e inferiores. 2) fratura cominutiva com afundamento e exposição de massa encefálica no hemisfério direito do crânio. 3) ferimento lácero-contuso extenso, interessando o terço inferior da coxa, joelho e terço superior da perna esquerda. Conclusão: concluímos que o examinado faleceu em virtude de choque traumático por politraumatismo”.

Depondo no Dops em fevereiro de 1970 a respeito da explosão do Volkswagen na Rua da Consolação, em setembro de 1969, perante o delegado Edsel Magnotti, Hans Rudolf Jacob Manz declarou:

“Conheceu Sérgio Roberto Correa, o qual sempre visitava a casa do interrogando; que Sérgio Roberto Correa, antes do interrogando viajar para a Bahia, recebeu deste vários objetos para serem vendidos, uma vez que o interrogando se encontrava em situação financeira difícil, sendo certo que entre esses objetos havia uma pistola Beretta cal. 6.35, devidamente registrada na Delegacia Especializada de Explosivos, Armas e Munições em nome do interrogando; que, quando foi preso pela Operação Bandeirantes ali ficou sabendo que, na explosão ocorrido no interior de um Volkswagen, na Rua da Consolação, foi encontrada aquela pistola Beretta, de propriedade do interrogando e que se encontrava em poder de Sérgio Roberto Correa; que Sérgio Roberto Correa visitava o interrogando em espaços de oito a dez dias e a última vez que esteve em visita ao interrogando, na casa da Rua Ibituruna, nº 1085, se deu o mais tardar em meados de agosto, sendo certo que fica sabendo por esta autoridade que a explosão do veículo no qual fora encontrada a pistola Beretta de sua propriedade se deu na madrugada de 4 de setembro; que o interrogando não via Sérgio desde agosto e não o viu mais até sua prisão e não sabe de seu paradeiro; que reconhece na cópia xerox a foto de Sérgio Roberto Correa como sendo o mesmo a quem havia entregue aquela pistola automática; que, ao que parece, a pistola Beretta de sua propriedade era de nº B-32259 cal. 6.35; que é possível que a vítima desconhecida daquela explosão seja Sérgio Roberto Correa, pelos fatos seguintes: 1º) a arma que ali foi encontrada fora entregue pelo interrogando a Sérgio Roberto Correa; 2º) o interrogando teve oportunidade de ver uma fotografia no jornal “O Estado de S. Paulo” na qual havia o detalhe de um sapato apenas, do tipo moderno com bico quadrado, idêntico a um par de sapatos que Sérgio Roberto Correa usava na última vez que visitou o interrogando, tendo este notado o detalhe uma vez que havia brincado com ele devido ao tipo de sapato de bico largo; 3º) pelo fato que logo após aquela explosão e decorridos quatro meses após a última visita de Sérgio, este nunca mais apareceu em sua casa, uma vez que ambos eram amigos íntimos, sendo certo que o interrogando o procurou no local onde trabalhava, por diversas vezes, e seus colegas de trabalho nunca mais o viram, embora o mesmo já tivesse pedido demissão do emprego; que não conhece Ichiro Nagami, e exibida sua fotografia, o interrogando diz que nunca o conheceu e nem, o viu. Nada mais disse e nem lhe foi perguntado.

As pesadas baixas impostas ao movimento de resistência entre 1969 e 1972 deixaram ao sistema de segurança nacional a incumbência de prosseguir com os processos abertos nessa época enquanto, simultaneamente, combatia alguns focos remanescentes. Na Justiça Militar, Sérgio Roberto Correa continuava denunciado pelo Ministério Público Militar em processo que corria à revelia. Ele era, em março de 1973, considerado foragido. Embora, desde o segundo semestre de 1969, não tivesse mais encontrado qualquer de seus companheiros e, antes disso, estivesse sem qualquer contato com a família em Mogi.

A ficha de Serginho que servia para acompanhamento das fases do processo, informa que a ação começou em 28 de setembro de 1969 e dá como seu endereço a residência da família em Mogi das Cruzes. Nada mais informa.

Varias das pessoas envolvidas no mesmo processo, que apurava as atividades da Aliança Renovadora Nacional, conseguiram a revogação de sua prisão preventiva. Em sua maioria, elas eram obrigadas a apresentarem-se regularmente às autoridades de segurança. Várias delas, entretanto, resolveram deixar o País, exilando-se no Exterior. Em um primeiro momento, muitos foram para o Chile onde, em 1970, havia sido eleito presidente um senador socialista (Salvador Allende). O governo socialista do Chile, entretanto, foi derrubado por uma junta militar em 1973 e os exilados brasileiros rumaram para outros países.

Serginho continuava desaparecido.

No dia 23 de março de 1975, a 2ª Auditoria Militar, em São Paulo, exarou sentença de 184 páginas no processo sobre a ALN. Para “o revel Sérgio Roberto Correa”, o último dos 143 citados, a sentença dedica 36 linhas e reserva a condenação de três anos e quatro meses de reclusão, com a pena acessória de suspensão dos direitos políticos por 10 anos.

Ele foi condenado por participar de cursos sobre explosivos, atentado a bomba contra a CBI e ações no bairro do Jaçanã; Bradesco na Rua Major Diogo e Banco do Brasil, em Utinga. A sentença foi assinada pelo tenente coronel Fernando Martins Moreira; pelos capitães Pedro Ivo Freire Rostery, Arthur do Canto Neto e Nelson Regado Leme. Era juiz auditor, Nelson da Silva Machado Guimarães.

Sérginho nunca foi preso. Sérginho nunca prestou depoimento. Sérginho nunca confessou nada. Sérginho nunca delatou um companheiro.

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