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Waldemar Costa Filho

Faz 4 anos. Ele havia deixado a Prefeitura de Mogi das Cruzes, onde exercera seu quarto mandato há pouco menos de 4 meses. Transcorre amanhã o quarto ano do seu falecimento. Personagem curiosa Waldemar Costa Filho. Personagem da comunidade que se confunde com personalidade da história. Soube de sua existência quando eu tinha menos de 10 anos de idade e freqüentava, levado pela babá Adelina, um salão de barbeiros na Vila Hélio. Era final dos anos 50 e a Vila Hélio, um conjunto residencial de classe média construído por Hélio Borenstein em terrenos de sua propriedade entre a Avenida Pinheiro Franco e a Rua Flaviano de Mello. Eu tinha amigos cujos pais pagavam aluguel a Hélio Borenstein e, na Vila Hélio, moravam personagens da vida local. Waldemar Costa Filho era um deles. Outros: o professor Dermerval Arouca, delegado de ensino da Cidade; os irmãos Isaac e Jaime Grinberg e um português recém chegado Mogi e que instalou ali uma padaria, a mais moderna da Cidade então. O português chamava-se Januário Figueira da Silva e, na Vila Hélio, além da padaria, do salão de barbeiros e da Loja Belver, havia um punhado de moças bonitas com quem a gente tentava furtivamente – e sem sucesso – flertar. Havia as filhas do professor Dermerval e as filhas de Waldemar Costa Filho.

Acho que ele – Waldemar –, com a família formada por dona Emília (sim, o nome de batismo de dona Leila Caran Costa é mesmo Emília) e os filhos Leila, Samira e Valdemar “Boy” Costa Neto moraram pouco tempo na Vila Hélio. Mudar de casa era uma constante na vida da família. Viveram na Vila Hélio, ocuparam por algum tempo uma ampla residência construída na Avenida Pinheiro Franco, transferiram-se para uma casa da Rua Coronel Souza Franco, quase esquina com a Rua Tenente Manoel Alves dos Anjos; depois para uma outra casa da mesma Coronel Souza Franco, já no bairro do Carmo – onde hoje está o escritório político do filho. Saíram dali para ocupar um paradisíaco sítio construído no distrito de Sabaúna. De lá para uma casa na Rua Francisco de Assis Monteiro de Castro, na Vila Oliveira. Mais tempo ficaram mesmo no apartamento do segundo andar do Edifício Portinari, o conhecido “Gaiola de Ouro”.

As casas da família servem, simbolicamente, para determinar as fases da história de Waldemar, o mineiro de Juiz de Fora que chegou a Mogi com 17 anos de idade para trabalhar na Mineração Geral do Brasil. O pai, ferroviário, servia na Estação São Paulo da Estrada de Ferro Central do Brasil, um amplo pátio de manobras com armazéns que havia no bairro do Tatuapé e acabou cedendo espaço para a Avenida Radial Leste e para instalações do metrô. Eram dois os filhos: Waldemar, o mais velho, veio para Mogi e aqui ficou; Waldemir, o caçula, incursionou pela aviação, pilotou para a Varig e, quando se aposentou, andou pilotando os aviões do Bradesco.

Na faixa dos 30 anos, morando na casa que construiu na Avenida Pinheiro Franco, com a indenização recebida da Mineração Geral do Brasil, Waldemar Costa Filho resolveu deixar de lado os negócios da Sometra, uma transportadora que mantinha em sociedade com Mário Cilento e tentar a política. Deu-se mal: perdeu em 1958 a primeira eleição que tentou para prefeito. Mas, o mosquito verde da política o havia contaminado. Quatro anos depois, em 1962, candidatou-se a vice-prefeito. Naquela época havia chapas distintas para prefeito e vice e Waldemar aceitou uma composição para eleger Carlos Alberto Lopes prefeito. Venceram. E romperam em pouco tempo.

Ficaram juntos o ano de 1963 e começaram a se estranhar no início de 1964. A Prefeitura funcionava, então, em um casarão construído nos anos 20 pelo médico Deodato Wertheimer na Rua José Bonifácio, ao lado da atual Catedral de Santana. Waldemar montou o gabinete do vice-prefeito na Rua Barão de Jaceguai, onde até há alguns anos funcionava o 1º Tabelionato. Ali eram personagens constantes gente como Rubens Magalhães, Tufy Elias Anderi, Edson Consolmagno. Havia um verdadeiro poder paralelo que, em pouco tempo, começou a importunar o prefeito Carlos Alberto Lopes e seu grupo. Waldemar estava lançando as bases de sua estrutura política.

Em 1968, candidato a prefeito, elegeu-se sem dificuldades. Levou consigo para a Prefeitura, como vice, o professor José Limongi Sobrinho e a equipe que o acompanhava no gabinete da Barão de Jaceguai. Levou também Manoel Bezerra de Melo, o padre que havia chegado á Cidade em 1962, se elegera deputado federal em 1966 e de quem recebeu apoio político e financeiro para a eleição em 1968.

De imediato, o estilo Waldemar Costa Filho de administrar impôs-se: poucos dos que integravam a sua equipe de vice-prefeito continuaram ao seu lado e, mesmo com Padre Melo, teve a ponto de romper quando não aceitou os argumentos em favor da municipalização do Ginásio Diocesano pretendida por Padre Melo. Já com braços no ensino universitário, ele queria desvencilhar-se do ensino médio com o qual dera início à sua empreitada na Cidade.

O novo prefeito, que tomou posse em 1969, mesclava ações quixotescas, como a demissão em massa de funcionários municipais e a troca pública de impropérios com o então governador Roberto Costa de Abreu Sodré; com outras, pragmáticas, como a construção de escolas e a recuperação da frota de máquinas e veículos municipais. Dessa época, sua grande sacada foi a construção da Rodovia Mogi-Dutra. Sacada de mestre que desafia a sorte. Sacada típica de um jogador de pôquer. As obras da Mogi-Dutra começaram ainda em 1970. Ficaram prontas, em chão batido, em 1972, ano de eleição municipal e, sorte de Waldemar, Laudo Natel era governador do Estado e tinha, por secretário dos Transportes, Paulo Maluf. Era tudo do que ele precisava para garantir a retificação do traçado original e a sua pavimentação. Não é difícil supor os motivos pelos quais Waldemar conseguiu, em 1972, eleger um desconhecido promotor de Justiça para sucedê-lo. Seu nome: Sebastião Cascardo.

• FORA DA PREFEITURA

Feito o sucessor na Prefeitura de Mogi, Waldemar Costa Filho precisava ocupar o tempo. Se ficasse em Mogi, acabaria se envolvendo nas coisas da Prefeitura. Não queria. E não gostou quando, certa vez, convocado pelo secretário de Obras de Cascardo, foi ver a obra de um pontilhão sobre o Rio Negro na Rua Rosário Eboli. O pontilhão mais parecia um sarcófago que se elevava além de metro sobre o nível da rua. “Só implodindo”, disse ele. A frase acabou divulgada por este jornal. Waldemar fez as malas e passou a administrar a Faculdade Tibiriçá, em São Paulo, que havia fundado em sociedade com Maurício Chermann e Ernani Bicudo de Paula.

Mais quatro anos, uma nova eleição municipal e lá estava Waldemar Costa Filho de novo. Para vice-prefeito escolheu Álvaro Carneiro, o carismático líder espírita que construiu em vida uma das maiores obras beneméritas desta Cidade: a Maternidade da Mãe Pobre e a Creche do Centro Espírita Antônio de Pádua. Era o tempo difícil do regime militar e do bipartidarismo. Waldemar candidatou-se pela Arena, o partido oficial do regime militar. Sozinho. Para vencer, teria de ter mais votos que a soma dos votos conferidos aos três candidatos do MDB de então: Rubens Magalhães, Américo Kimura e Herval Brasil.

Levou. Por conta de uma estrutura política sólida e por conta de uma relação de 18 itens que cismou de exigir do governo do Estado, então dirigido por Paulo Egydio Martins. Dos 18 itens pouco se falou após as eleições. Alguns até que foram cumpridos, como a construção de uma nova Escola Técnica Estadual e a concessão de empréstimos para a rede de saneamento básico da Cidade. Outros, como a nova ligação com São Paulo (falava-se então na Via Expressa do Vale do Aricanduva), a estrada Mogi-Bertioga e a remodelação dos trens suburbanos só viriam mais tarde.

No dia da posse, envolvido pelos correligionários, Waldemar brandia dois envelopes em frente à sede da Prefeitura, que então funcionava em um imóvel do Lions Clube na Praça Norival Tavares. Um deles estendeu para familiares do prefeito que deixava o cargo. Soube, depois, que seria a nomeação de uma de suas filhas para um cargo na Secretaria de Educação da Prefeitura. Outro ele estendeu para mim: era um envelope pequeno, fechado com cuidado. Abri e deparei-me com um recorte do Diário de Mogi de meses atrás, no qual uma certa vidente chamada “Madame X” previa que o novo prefeito de Mogi seria um nome sem qualquer passado político. Anotado de próprio punho do papel branco sobre o qual colou o recorte, havia a seguinte frase: “Chiquinho, Madame X se fodeu. Quero que ela vá para a puta que a pariu”

Mais uma vez a sorte esteve ao lado de Waldemar Costa Filho: Paulo Maluf sucedeu Paulo Egydio Martins no governo do Estado e estreitou suas ligações com o chefe político de Mogi. Para conseguir o que queria, Waldemar acordava cedo e apelava para suas ligações com a família Jafet, seus antigos patrões na Mineração Geral do Brasil, onde – coincidência das coincidências – Paulo Maluf estagiara quando aluno da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Por tudo isto e treinado pela primeira administração, Waldemar transformou sua segunda passagem pela Prefeitura de Mogi em um marco: em 1982 ele próprio participou, em menos de um mês, de duas inaugurações importantíssimas para a Cidade: a atual Rodovia Ayrton Senna, construída pelo governador Paulo Maluf e a estrada Mogi-Bertioga, que a Prefeitura de Mogi abriu e Maluf cuidou de retificar e pavimentar.

Além disso, orgulhava-se muito dos prédios públicos que construiu e da ampliação da rede de saneamento básico. Também do asfalto que estendeu por quase toda a Cidade.

Nada disso, contudo, foi suficiente para evitar a derrocada de seus candidatos a prefeito. Do lado da oposição saíram Rubens Magalhães, Aécio Yamada e um promotor de Justiça de nome Antônio Carlos Machado Teixeira. Do lado da situação, Francisco Ribeiro Nogueira, Junji Abe e Nicolau Lopes de Almeida. Mogi das Cruzes não ficou de fora do vendaval do PMDB que varreu o País: elegeu Machado Teixeira prefeito e Jacob Lopes deputado estadual. Foi um período tumultuado da política local, durante o qual houve de tudo: o escândalo Mogigate, uma denunciada tentativa de extorsão contra uma empresa de ônibus e até negociações para a municipalização da Universidade de Mogi das Cruzes.

• FORA DA PREFEITURA

Mais uma vez fora da Prefeitura, após cumprir seu segundo mandato, e seguindo a rotina que se impôs de permanecer longe das questões locais, Waldemar Costa Filho passa a dividir seu tempo entre o sítio que construiu em Sabaúna e os negócios em uma madeireira nas cercanias de Manaus, adquirida em sociedade com o filho Valdemar “Boy” Costa Neto e Ernani José de Paula. Nessa época, Waldemar enfrentou um dos períodos mais difíceis de sua vida. Ele andava afastado da filha Samira, que então vivia na cidade de Taubaté. Voltaram a se falar e, em um domingo pela manhã, viajando de Taubaté para Sabaúna para o almoço no sítio, Samira sofreu um acidente no acesso a Guararema da Estrada Velha São Paulo-Rio. A morte de Samira foi um duro golpe. De pronto, Waldemar desfez-se do sítio e passou a morar em uma casa da Vila Oliveira, na Avenida Francisco de Assis Monteiro de Castro. O sítio ficou com um amigo de Ribeirão Pires, também político e companheiro de longas partidas de pôquer.

E veio nova eleição. E, novamente, Waldemar foi candidato. E, novamente, Waldemar foi eleito prefeito, tendo por vice o médico Nobolo Mori. A sua terceira administração como prefeito de Mogi foi marcada por sucessivas licenças médicas que o obrigaram a afastar-se várias vezes do cargo. Para muitos de seus companheiros, as licenças na verdade eram maneiras de se distanciar de um cargo que já não lhe trazia a satisfação de outrora; para outros, resultado do descontentamento com a situação financeira do País e, por conseqüência, da Cidade. Não havia recursos para grandes investimentos. Ainda assim, a grande obra desse período, da qual ele sempre se lembrava com orgulho, era a extensão da Avenida Perimetral da Cidade.

Nas eleições de 1992 finalmente o ex-vereador e ex-deputado estadual Francisco Ribeiro Nogueira conseguiu eleger-se prefeito. Tinha Manoel Bezerra de Melo, o Padre Melo, por vice. Chico Nogueira, por quem Waldemar Costa Filho já não nutria qualquer simpatia – uma maneira soft de identificar a cisão política entre os dois, surgida depois que Chico desenterrou uma carga de macarrão que seria da Merenda Escolar e foi descartada por estar vencida – não cumpriu seu mandato: vítima de um infarto no avião que o levava para uma viagem a Brasília, morreu e deixou a Prefeitura para Padre Melo cumprir o mandato até 1996.

• FORA DA PREFEITURA

Novamente fora da Prefeitura de Mogi das Cruzes, Waldemar Costa Filho precisava ocupar seu tempo. E o ocupou no cargo de secretário de Abastecimento da Prefeitura de São Paulo, nomeado pelo prefeito Paulo Maluf. Para a Secretaria do Abastecimento Waldemar levou uma tropa de assessores de Mogi. E realizou, lá, um trabalho de impacto que o transformou em notícia: ele não hesitava em fazer incertas em hotéis e restaurantes finos da Capital, denunciando irregularidades sanitárias. Nesse período sofreu um novo e duro golpe familiar: o genro José Benedito Correa morreu, vítima de infarto, quando esperava o embarque, no Aeroporto de Miami, no avião que o traria de volta ao Brasil. Waldemar ficou na Secretaria do Abastecimento o tempo suficiente para esperar uma nova eleição.

E ela veio em 1996. Seria a quarta administração de Waldemar à frente da Prefeitura de Mogi. Tendo por vice o médico Melquíades Machado Portela, Waldemar passou seus últimos quatro anos no cargo reclamando – e muito – da situação financeira e das dívidas que herdou e teve, segundo dizia sempre, de pagar. Além disso, não cansava de se queixar, com razão, do absoluto desprezo do governador Mário Covas para com as reivindicações de Mogi das Cruzes.

• FORA DA PREFEITURA A última vez que vi Waldemar Costa Filho com vida foi no dia 30 de março de 2001. Fui visitá-lo, início da noite, no apartamento 725 do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Conversei muito com o filho Valdemar “Boy” Costa Neto, deputado federal que havia acabado de chegar de Brasília disposto a passar o final de semana em companhia do pai. Enquanto estive lá, também o visitou o neto Leonardo. Com Waldemar a conversa foi rápida, como convém a uma visita nessas condições. Cumprimentou-me sorrindo. Estava sentado, de pijama, com O Diário de Mogi nas mãos. Apresentou-me à enfermeira, dizendo que eu era um dos amigos mais antigos do seu filho. Fez alguns comentários sobre notícias que o jornal publicava enfocando assuntos da Prefeitura de Mogi. Seus olhos, por trás dos óculos de lentes escuras, brilhavam. Mas a armação parecia que já não lhe servia mais. Ele estava magro. O aperto de mãos, o último, levou-me de pronto ao primeiro aperto de mãos que trocamos. Era tão forte quanto.

BOX

Afinal, o que espera o deputado estadual Luiz Carlos Gondim Teixeira para propor, na Assembléia Legislativa, que se dê o nome de Rodovia Waldemar Costa Filho à ligação da Cidade com a Rodovia Ayrton Senna? Uma maneira justa de homenagear quem, com a cara e a coragem, rasgou a Serra do Itapety e rompeu um bloqueio de 22 anos: Mogi foi a única das cidades anteriormente cortadas pela Estrada Velha São Paulo-Rio que não teve, de pronto, um acesso à Via Dutra.

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