Especiais

Na Rua Isabel de Bragança

Meu caro Walter

Bem que pensei em iniciar esta carta com o diminutivo pelo qual todos nós, que vivemos entre 1950 e 1970 no quarteirão da Rua Isabel de Bragança entre a Avenida Pinheiro Franco e a Rua Flaviano de Melo, o tratávamos. Mas, convenhamos, não fica bem para alguém que passou dos 50 e já é avô. E, de mais a mais, veio-me de pronto a reação que dona Nilza, sua mãe, tinha a cada vez que batíamos no sobrado e perguntávamos por “Waltinho”. Ela dizia: “Walter Alexandre não está”. Da mesma forma que minha mãe reagia à pergunta de vocês – o Chiquinho está?: “Francisco José ainda não chegou da escola”.

Mas isso não importa. Dia destes fui a um café em nossa rua. Ele fica ao lado do edifício que Henrique Borenstein construiu no terreno onde, ao nosso tempo, funcionava o Liceu Braz Cubas, bem em frente às instalações do 1º Tabelionato. E, no pouco tempo em que estive ali, voltei anos. Tentei me lembrar da época em que era possível até jogar bola na rua, tão poucos eram os carros que passavam.

Seguindo a atual mão de direção – da linha do trem para a avenida – a casa da esquina era ocupada pelos irmãos Roberto e Eduardo Arouche, meus primos. Onde eles estão? Roberto, engenheiro que fez carreira na IBM, segue como consultor na área de informática e Eduardo, que completou carreira como promotor de Justiça, é hoje professor de Direito. Ainda desse lado da rua, havia duas ou três casas depois a de Yeda e Zuca Helal. De Yeda não tenho tido notícias, mas com Zuca falei há alguns dias. Ele mora em Ribeirão Preto com a esposa, onde cuida de uma empresa de importação e exportação de equipamentos para usinas de álcool. Mais um pouco, a casa da família Branco, que se mudou para lá quando já éramos quase adolescentes. Em seguida, o Liceu Braz Cubas e, depois, a casa onde viveram os Atuí. Mais adiante, onde Jair Monsores teve seu escritório de advocacia e a da família Benatti, do nosso amigo Pompilho. Ele continua em Santos? O quarteirão terminava com um posto de gasolina que abrigou, durante anos, a agência Ford de Mogi.

Em frente, já na outra calçada, havia um ferro velho no terreno hoje ocupado por um prédio de apartamentos e no qual alguns dos primeiros moradores acabaram se juntando a nós, como Marcos e Newton Schwartzmann; Álvaro e Elza Muller da Silveira e Cecília Pacheco. Eram vizinhos de sua casa, que você dividia com seus pais, mais seu irmão e suas irmãs. Do outro lado, também como vizinho, a família do Salvador e, em seguida, por algum tempo, Chang Dai Chien e sua família. Em seguida, a casa onde viveu o dr. Fragoso, juiz de Direito da cidade e, depois, a de dona Rosa. Uma vez dona Rosa chamou-me para espantar uma lagartixa. Foi a primeira vez que vi um rabo de lagartixa de separar do corpo e continuar pulando. Ao lado de dona Rosa, a casa da família Batalha, minha vizinha à direita. À esquerda, uma casa depois, vivia o Dito Franco com o irmão, a irmã e seus pais. Depois, Tonico Stiliani e, mais adiante, o consultório – acho que o primeiro que ele teve – do dentista Fernando de Souza. Finalmente, a casa nova que a família Helal construiu. Moderna na época, era um exemplo de arquitetura na cidade.

Pois é: lembrei-me de tudo e muito mais. Não tive saudades na acepção arcaica do sentimento. Lembrei-me com alegria de nossas mães que pareciam ter paciência muito acima do normal para nos suportar e às diabruras que só mesmo Doda Ornellas, Lourdes Franco, Nilza Ferraz, Faride Helal e Miriam Arouche poderiam relevar.

Grande abraço do

Chico

Copyright - Todos os direitos reservados