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Meu amigo Zé

“O que é isso, Chico, você está parecendo um Zé!” Quando Mikio Okada, o ‘Boi’, disse-me isto na segunda série do curso ginasial do Liceu Braz Cubas eu não entendi. Nada. Mikio era um touro, nissei forte, criado na roça mas urbanizado como poucos dos amigos japoneses que tenho. Estivemos muito próximos nessa época. Ele um dos mais velhos de sua turma, eu um dos mais jovens da minha. Foi ali que descobri como é chato estar entre os mais novos. Chamam-nos de ‘menino’ quando para o bem, de ‘cueiro’ quando para o mal; as garotas nunca nos olham. Mas, fora aquela chamada de ‘Zé’, eu e Mikio sempre nos demos muito bem. Também na maturidade, ele trabalhando na agência local do Banco Real, eu na redação de O Diário.

“Mikio – mas eu sou um Zé, meu nome é Chico Zé” disse-lhe de troco. E começamos ali a divagar sobre os ‘Zé’ das nossas vidas. Não me lembro de ter encontrado, dentre eles, um safado. Muito pelo contrário: a boa índole e a lealdade parecem características inatas a todos.

Dos meus antepassados, o primeiro Zé do qual tenho notícia é o distante Zé Arouche de Toledo Rendon, paulista que morreu em 1834 com 78 anos, com tempo suficiente para ter desenhado o novo centro de São Paulo, o Jardim da Luz e ter sido o primeiro diretor da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Depois dele meu tataravô, Zé Franco de Camargo (morto em 1890) e meu bisavô Zé Arouche Junior. Com eles não tive contato, mas convivi muito com meu tio Zé Arouche de Toledo, rotariano convicto, advogado dedicado e pai do meu primo Zé Luiz, por sua vez pai do Zé Carlos. Sabe aquele primo mais velho que faz tudo o que você, infante, gostaria de fazer quando rapaz? Pois esse era o Zé Luiz. Eu usava calça curta em certo carnaval em que Zé Luiz chegou com a corte do eterno Rei Momo João Benegas Ortiz à casa que a família então ocupava na esquina das ruas Braz Cubas e Barão de Jaceguai, frente para a Praça Oswaldo Cruz. Que vontade me deu de acompanhá-los!

Como Zé Luiz, todos os meus primos de igual prenome são figuras incríveis. A começar pelo Zé Eduardo, quase um irmão. Temos, na idade, poucos meses de diferença, fomos vizinhos na Rua Isabel de Bragança e seguimos trajetória parecida até concluir a mesma Faculdade de Direito Braz Cubas. Dali ele rumou para o Ministério Público e eu para os jornais. Era em sua casa de Caraguatatuba onde passávamos muitas das férias de verão, paparicados por seu pai Tico Arouche. Ou ainda o Zé Fernando, 3 anos mais jovem e que tinha a vantagem de morar em São Paulo. Primeiro no Belenzinho, depois nas Perdizes. Aqui em Mogi ainda havia – e há – o Zé Roberto, este mais jovem, filho do Roberto Schmutzer Franco, meu professor de Trabalhos Manuais. E em São Paulo permanece o Álvaro Zé. Mais distante, no México, tem o Zé Flávio, irmão do Zé Fernando. E, em Miami, o Zé Otávio, irmão do Zé Oswaldo, médico que clinica em São Paulo.

Se falar apenas de parentes cria suspeição, então vamos aos não consangüíneos, a começar pelo sogro Zé do Prado: com ele tive 35 anos de convivência engrandecedora e também com seu filho – e meu cunhado – Zé do Prado.Filho. Basta ver os filhos dos dois para avaliar como eram eles. Outro dia um outro amigo, também Zé, perguntou-me se eu conheci determinado pessoa. De nome Zé. Disse-lhe que conhecia pouco, mas a avaliar pelos filhos que tem, não resta dúvida: pode confiar. Há várias confirmações dessa teoria hoje em Mogi. Quem conheceu seo Guedes pode bem avaliar quem é seu filho Zé Carlos, o ‘Banheira’; quem conheceu Zé Moreno Rueda pode bem imaginar seu filho Júlio; o mesmo com César Sgarbi e seu filho Zé César e quem conhece Jamil Hallage sabe bem como é Zé Miguel. E há que se agradecer a Zé Maria Coelho pela lembrança permanente que ele nos traz de sua mãe Astréia Barral Nébias. Além, é claro, quando pai e filho se chamam assim – ai então, vão além, como o provam Zé Marques e o filho Zé Brasílio.

Outra característica do nome é a competência em áreas díspares e de sucesso difícil: na moda, fica-nos o exemplo de Zé Vitor Zerbinato; na culinária, de Zé Baratino; no colunismo social, de Zé Vilemar e, na medicina, de Zé Roberto Novaes.

E quantos outros Zé não passaram por mim: o Zé Macarrão, por exemplo. Dono da maior bicicletaria de Mogi, na Praça Oswaldo Cruz, era a ele que me socorria para os pneus furados, os raios quebrados e as correntes partidas das bicicletas com as quais andava por Mogi de ponta-a-ponta. Não é contar vantagem: o ponta-a-ponta de Mogi da minha infância ia da Vila Hélio ao Largo do Carmo. Para baixo e para cima nada mais. É dessa época minha convivência com o Zé Nunes, mestre na construção da casa que meu pai erigia na Rua José Eboli.

Outro Zé inesquecível era o Chaveiro, até hoje marca de loja que faz esse tipo de serviço. Ele não está mais por aqui, mas sua loja Ao Zé Chaveiro continua na mesma Rua Isabel de Bragança, hoje tocada por gente de Itaquaquecetuba. Ele tinha um sorriso daqueles que parecem dizer: “em mim você pode confiar”. E nele todos confiavam: fosse para abrir a porta de um carro, de uma casa, trocar uma maçaneta, fazer cópias no formão e lima (não havia as máquinas de hoje) ou abrir um cofre. Uma das últimas missões de Zé Chaveiro de que tive notícias foi-lhe encomendada pelos sobrinhos e herdeiros de Dito Lopes: era abrir o cofre do tio benemérito, onde imaginavam encontrar muitas das jóias arrematadas nos leilões da Caixa Econômica. Encontraram nada além de uma caneta Bic. Sem tampa.

Por ali, ainda na Rua Isabel de Bragança, havia o Zuca Helal, hoje em Ribeirão Preto (Zuca apenas para diferenciar do pai, Zé Helal) e o Zé Branco, que chamávamos de Zé da Roça só porque, em determinada época, a família resolveu deixar as terras que possuía em Santo Ângelo e mudar-se para a Cidade. Uma maneira de facilitar os estudos dos filhos. Não pude, ainda, confirmar uma história que me contaram nessa época, idos da década de 1950. Mas a transmito assim mesmo: em tempos de bancos de escrita manual e quando o que valia era a confiança de um fio de bigode, a família Branco teria confiado ao pai de um outro Zé da rua o montante com o qual pagaria a compra da casa no dia seguinte. Dinheiro guardado, dinheiro entregue, compra feita. O outro Zé está aí para confirmar (ou desmentir): é o arquiteto Zé Carlos Franco.

Pela Prefeitura de Mogi, por onde passaram 48 homens nos últimos 107 anos, apenas 3 deles se chamavam Zé. Foram: Zé Cardoso de Siqueira (1905-1906), Zé Arouche de Toledo (1911) e Zé de Souza Boigi (3 vezes, em 1936, 1943 e 1947). Talvez isto explica muita coisa. Já se disse aqui que a boa índole e a lealdade parecem características inatas a todos? Nessa seara fica-nos o exemplo de um vice-prefeito, Zé Limongi Sobrinho. E vereadores como, Zé Benoni, Zé Carlos ‘Charutinho’ de Souza e Zé Cardosinho. Hoje, a Câmara de Mogi tem apenas um, Zé Antonio Cuco Pereira.

Nessa particular, seguimos a sina brasileira: dos 31 homens que passaram pela Presidência da República desde a proclamação em 1889, apenas 3 tinham o nome: Prudente José de Morais Barros (1894-1898); o interino José Linhares (1945-1946) e José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, que você conhece por Sarney (1985-1990). Mas também, em se tratando de poderosos, não ficamos atrás nem dos Estados Unidos, tampouco da Inglaterra: não houve um presidente norte-americano ou um rei inglês de nome José. E, pelo Vaticano, onde já estiverem 25 ‘Joãos’ (23 João e 2 João Paulo), dentre os 265 papas nunca houve um de nome José. Apesar de o atual, por batismo, chamar-se Zé Alois Ratzinger.

Quando comecei minha vida de trabalho – há 43 anos –, estava prestes a completar 18 de idade e, de pronto, fui apresentado a um outro Zé, que seria meu chefe: Moura Santos então tinha história para ser meu pai. Mas jamais me tratou como um infante. Na oficina do jornal ficava o Zé Antonio, cara de alma branca como poucos que conheci. Foi assim também como Zé Maria Homem de Montes, diretor do Grupo Estado e continua assim com o Zé Maria Mayrink, repórter do Estadão.

A partir deles sucederam-se muitos do prenome. Como o Zé Carlos Bertocco, que veio de Santos com os pais e as duas irmãs e com o qual estabeleci uma amizade que resiste à distância de 450 quilômetros que separam Mogi das Cruzes de Ponta Grossa, onde ele vive com a família desde a década de 1970. Temos muitas histórias em comum e, a cada reencontro, os meus filhos e as suas filhas deliciam-se com causos impagáveis. Não é diferente quando reencontro o João Zé de Siqueira, colega de faculdade e o Zé Sebastião Witter, eterno professor. Ou o Zé Helton N. Diefenthaler, magistrado que me foi apresentado pelo arquiteto e confrade Zé João Mossri. Por falar em magistrado, é bom não esquecer do desembargador Zé Elias Habice. E, em se falando na Justiça, há que se citar o promotor Zé Oswaldo de Azevedo Jardim.

Outros houve. E muita há. Como o Zé Ernani, que tinha um armazém na esquina das ruas Santana e Santos Cardoso – isso em tempos passados. E, no presente, o Ernani Zé, que andou incursionando pelo cerrado goiano depois de fazer história por aqui.

Quando lembro-me de alguns, impossível deixar de me referir à definição que Danuza Leão deu à paz dos inquietos: “É a inquietação; ou você nasce com ela ou não, e se nasceu, vai passar a vida inteira com uma pressão no peito e outra na alma, querendo entender e não entendendo, trocando de casa, de objetivo, de marido e de analista, sem chegar, nunca, a uma conclusão. Um inquieto não tem sossego: se é pobre, gostaria de ser rico, se é rico, acha que o dinheiro atrapalha e que talvez fosse mais feliz se morasse numa pequena cabana. Se é inverno, ele se lembra com saudades do verão, mas se está debaixo do mais lindo sol, pensa em como seria bom se estivesse em Gramado no inverno, de botas, tomando um chocolate quente. Não é que ele queira sempre o que não tem; apenas não consegue viver o momento presente – não em paz. Ou está lembrando do passado ou pensando em como vai ser bom quando o futuro chegar. É duro fazer parte da tribo dos inquietos.”

Muitos outros resistem e mantém o sorriso permanente – ainda que distantes de Mogi –, como o Zé Prego e o Zé Márcio de Souza Campos. O sorriso é uma característica do nome. Quem duvidar que dê de cara com o Zé do Arroz e o advogado Zé Pinto de Moraes; também Benedito Zé Queiroga, Zé Melmann e Zé Renato Silveira. Ou então, se recorde do Zé Correa e do Zé Luiz Simões.

Andando por esta Cidade é muito fácil avaliar a importância que essa gente teve em sua história: há 145 Zé denominando ruas de Mogi das Cruzes. Depois deles, só os Antonio (94 ruas), seguindo-se os João (84). Francisco são 74 e Maria, 44 ruas. Eta Cidade machista!

Dentre os que fizeram história há advogados como Zé Miragaia Ribeiro, Zé Pinheiro Franco e Zé Gonçalves Figueira; músicos como o Maestro Zezinho; poetas como o professor Zé Veiga; políticos como o vereador Zé Silveira; comerciantes como Zé Meloni, Zé Cury, Zé ‘Colibri’ Cardoso Pereira e Zé Urbano Sanchez; esportistas como Zé Luciano Namorado e cidadãos como Zé Batalha, Zé Calandra, Zé Augusto Moreira (avô e neto), Zé Colela, Zé Moretti. Tem também Zé Coccaro, o mágico dos fogos de artifício e Zé Honorato, o Quita, veterinário e amigo. Como o amigo e empreendedor Zé Elias Andere, o Zuzo. Quando se falar em lealdade, é bom não esquecer de José Tadeu Candelária e do Zé Peão.

Alguns do nome tentaram a ribalta por conta da política, como o Zé da Rita, candidato a vereador e outros, por mais que tenham tentado, não conseguiram passar desapercebidos: este era o caso do discreto Zé da Dirce, como ficou conhecido, na Prefeitura, o motorista que atendia, na década de 1960, a então secretária de Finanças Dirce Monteiro Leite. E continuou com o apedido quando passou a atender ao prefeito Sebastião Cascardo na década de 1970.. Ainda para os lados da Prefeitura, o Zé da Pinta, que fora dali era o Zé da Banda.

Há outros idealizados e imortalizados sem nunca terem vivido. É o caso, por exemplo, do personagem Zé Paulino, companheiro de Maria Angu nos tríduos da Festa do Divino Espírito Santo, imortalizado por Wilma Ramos no quadro que, lá em casa, faz a alegria de minha neta Veridiana.

Aqui estão citados 86 dos tantos e muitos outros amigos Zé que fazem parte da minha vida. Mas isto é como convite de casamento: por mais que se cuide, planeje e reveja, a gente sempre esquece de alguém inesquecível. Epa! Como é que fui esquecer de São Zé, logo você que olha tanto por mim e cujo dia de comemorará na próxima 4ª feira!.

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